Quem me quebrou os passos na estrada vazia,
onde esperei partir sem nunca chegar?
Quem poluiu o sal que me ardia,
na ferida aberta de tanto esperar?
Quem arrancou as portas do vento
onde quis ser livre sem me dobrar?
E me espalhou pelo chão do tempo,
cinza e grito, sem eco, sem lar?
Ó minha pobre alma! Não voltes atrás.
Olha a noite, olha o frio.
O grito afoga-se, já não és mais
o cisne branco, o voo tardio.
Pára. Respira. E se nada fores,
então sê o nada inteiro,
sê o gelo que cai sem dores,
neve lenta sobre um corpo derradeiro.
Floriram por engano as rosas bravas,
no deserto onde plantei um adeus.
Onde vamos, cegos, de mãos dadas,
se os nossos olhos são agora breus?
E sobre nós desaba o céu de pedra,
num beijo mudo, num véu sem cor.
Quem espalhou o inverno na minha febre,
quem me fez do nada, e nele me deixou?
