Mundo, Diabo e Carne

extraído da edição n° 1315 // ano 46

(12 Fev. 1996)

Foi encontrado no sótão de uma habitação particular desta região um documento manuscrito atribuído a um antigo padre da paróquia local, cuja identidade não será revelada por se encontrarem ainda em curso questões legais em disputa com a Igreja. O documento apresenta um texto extenso e intenso, de teor pessoal, religioso e filosófico, cuja linguagem contém passagens de forte carga simbólica, confessional e, por vezes, gráfica.

O padre em questão exerceu funções naquela paróquia entre 1986 e 1993, ano em que se ausentou da freguesia de forma definitiva, tendo pouco tempo depois, enviado uma carta a uma vizinha, residente da localidade — que prefere manter o anonimato por razões de privacidade e segurança — a solicitar que guardasse os seus pertences, pois regressaria em breve para os recolher. O regresso, no entanto, nunca se concretizou.

No ano seguinte, ao proceder à reorganização dos objetos do ex-pároco guardados no seu sótão, a referida residente encontrou o manuscrito misturado entre livros, documentos e outros artigos pessoais do sacerdote. O texto foi então entregue a este jornal com o pedido de ser analisado e, se considerado relevante, publicado.

Após análise editorial e apesar da pressão exercida por representantes da diocese e por instâncias da própria Igreja no sentido de impedir a divulgação do conteúdo, a redação decidiu finalmente avançar com a publicação do documento na sua totalidade, sem qualquer tipo de edição, corte ou censura.

Importa referir que a identidade da jovem mencionada no texto permanece desconhecida. Não foi possível verificar a veracidade dos factos descritos, nomeadamente os acontecimentos de natureza íntima relatados no manuscrito. Não é possível confirmar se os episódios ali descritos ocorreram ou se se tratam de construções de carácter pessoal, ficcional ou alegórico.

O texto menciona também a figura de um certo Padre Viriato. Registos paroquiais antigos indicam que um sacerdote com esse nome terá estado colocado noutra paróquia da região durante os anos 50, tendo sido nessa altura alvo de acusações relacionadas com comportamentos impróprios de natureza sexual. Contudo, todos os registos oficiais sobre o caso terão sido eliminados durante o regime do Estado Novo, impedindo qualquer investigação posterior.

Este jornal torna agora público o documento, certo de que há palavras que, quando se calam, perpetuam o que deveriam contrariar. Preservar os factos, a memória colectiva e o registo documental é, neste caso, menos um acto de arquivo do que um acto de justiça — sobretudo quando o silêncio protege estruturas habituadas ao privilégio. Quando certas forças tutelares se habituam a permanecer incólumes, cabe à palavra escrita recordar que nenhuma autoridade está imune ao tempo — nem à verdade.

Chama-se a atenção dos leitores para o conteúdo do texto que se segue, que inclui referências religiosas delicadas, linguagem gráfica e descrições com teor violento.


***

Não há nada mais erótico que o acto da confissão…

Nunca benzi a carne dos justos — e no entanto, em cada gesto meu, há uma espécie de profanação involuntária, uma santidade que me escorre entre os dedos e, sem querer, a conspurca com o simples acto de a olhar. A minha castidade, tem a forma de um cobertor de viúva sem nódoas de luto, dobrado e esquecido numa arca que ninguém ousa abrir. Ela fareja o incenso com instinto de bicho e decifra o latim na hesitação de quem persegue um presságio. Vagueia, solta, por entre os rituais das missas e fixa os sinos na esperança de que um deles, enfim, se cale. Toda a algazarra da cidade pecadora parece arrastar-se até mim e ajoelhar-se a meu lado, com a culpa nos ombros e a absolvição por pretexto. Mas eu, eu permaneço imóvel, absorto, endurecido — altar-mor esquecido, estátua na penitência dos títeres, quando a celebração se extingue nos confins da igreja e o dogma começa a cair do alto, com a lentidão de um arcanjo a atravessar ombreiras e a instalar-se no frio.

O meu abismo, esse, é recolhimento. É pio por hábito, ortodoxo por herança, e sustém no espírito o que nele deve residir quando já se julga capaz de absolver, mesmo que os dedos se benzam sobre velas sem se dar conta do gesto. Há nele o som do tilintar de moedas que caem para além do vitral do oratório — pequenas, redondas, discretas — como são também as minhas preces, que só me envergonham por saber que o são. Se o ignorasse, seriam talvez fervorosas, plenas de espasmo e febre, e não estas coisas torpes, sussurradas. Um segredo que nem ao próprio Deus se confessa.

Rezar, para mim, é ferida. Dói na mão estendida à esmola sob os arcos, quando o sermão lá dentro ribomba e faz eco de si mesmo. Não cultivo indulgências, nem as temo. Excomunhões não são coisa que me arranquem sono. Não tenho verdadeira vocação de homiliador — nunca tive —, e talvez seja essa a minha maneira de fugir à praça pública, onde tudo se diz e nada se crê. E se por vezes me assalta o anseio, esse delírio de ser círio — não simples chama, mas altar inteiro, para que me apague em cada esquina, distribuído em múltiplas bênçãos —, é porque sinto no peito o que se sussurra à beira da homilia, ou quando um estandarte embacia a lâmpada votiva e um murmúrio passa os bancos da nave com o punhal da dúvida. Nessas alturas sento-me a rabiscar ladainhas, ou deambulo pelas escadarias e pelos becos húmidos da Sé, onde o musgo cresce sobre o escrúpulo. Anoto epístolas num caderno que não existe fora do meu crânio e, entre os dedos, pressinto o peso de um rosário que nunca terminei de rezar.

Vejo-me então — um vulto de mim mesmo — empoleirado num púlpito de átrio, a olhar para o sermão como quem lê os próprios pecados. Ou ao contrário: a olhar os pecados enquanto ouve o sermão, não ato nem desato contrição. E sorrio de lado. Não por alegria, mas com a torpe complacência de quem sabe que não reza o que proclama, nem crê no que diz, mas finge — finge com a mestria de Simão Mago.

Tenho o hábito — chamemos-lhe mania não vão chamar-me monge sem o ser — de rondar velhas igrejas, revisitando sepulturas. Do lado das arcadas, os claustros sussurram o silêncio dos que já não voltam; na penumbra oposta, os confessionários abrem-se, bocas que aguardam a culpa. E por vezes, por detrás da cortina, entrevejo um vulto — e em cada instante vejo, com nitidez insuportável, aquilo que até então nunca ousara reconhecer. Absorvo-o com sofreguidão, com a sede de quem prova o fruto e não lhe conhece o nome. Possuo ainda o espanto virgem de um penitente que, ao ajoelhar, intui que se ajoelha diante de si próprio. A cada suspiro nasço, renasço, para a eterna inquietação da carne e do sangue. Creio — se é que o verbo se aplica — no escândalo num relicário; intuo-o, sim, mas não o admito. Porque admitir é entregar-se à danação, assinando com mão firme o auto de fé da sua perdição.

A fé, essa, não foi feita para os que a esmiúçam com gume. A razão — essa vilã — é um escarro no olho da alma. A fé serve os que cerram os punhos e engolem a lágrima. Não tenho doutrina: tenho nervos, veias a pulsar sob a batina. Quando murmuro sobre os santos, não o faço por veneração — antes por inveja. Porque invejo-lhes as tentações, os tormentos que os assombravam. Porque quem se reprime jamais esquece o que desejou. E não sabe por que se tolheu. Nem sabe o que é domínio. Desejar é uma inocência que se afogou em silêncio, e a única pureza, se existe, é não confessar.

Ao anoitecer — aquela hora em que o céu se encarquilha, pergaminho mal guardado — deixei-me tombar contra o gradeamento da sacada, o corpo em desatenção e o pensamento a pairar entre o cimento e o sermão. Sabia, que por ali passavam as rameiras em direcção ao convento, não por devoção, mas porque os corredores das celas, por vezes, acolhem melhor que os braços do mundo. E então, com os olhos a arderem-me, cinza lançada na íris, folheei mais uma vez, teimosamente, as epístolas apócrifas daquele certo Padre Viriato, que a muitos escandalizou e a mim enterneceu — um clérigo, sim, como eu, ainda que mais resignado ao seu destino de trapo. Era devoto no gesto, mas herético no peito, como se o corpo lhe desmentisse o latim sagrado da boca.

E que compaixão me invade por esse homem! Era um sacrista, encafuado em liberdade dentro de uma cela ornamentada, condenado à clausura, mesmo com as janelas abertas. Mas havia nele uma maneira — subtil e carnívora — de espreitar os ombros das beatas, omoplatas feitas profecia velada. Reparava-lhes nos decotes medindo o volume do pecado à flor da pele, e farejava os véus suados, relicários embaciados pela respiração. Tacteava coisas proibidas com a avidez dos que já perderam o medo do inferno.

A forma como ele olhava as pernas da penitente era de quem sabe que o corpo carrega os pecados e que a salvação, se existe, começa onde o pudor hesita. Essa mágoa sem nome que lhe habitava o membro jamais chegou a declarar-se, mas atravessava os corredores do convento pisando braseiros sem dar um ai. Gemia, sem ruído, esmagando uma anáfora entre dois missais puídos, ou escondendo crisântemos num jarro de vidro baço, como se não devessem jamais ver a luz do dia.

Foi nessa tarde — ai de mim, Nossa Senhora valei-me! — que o céu se rasgou, véu de noiva em agonia, e os telhados pareceram corcundas aflitas sob o peso da tempestade. Do coro alto caiu um bordado de veludo invisível, e os sinos, dobrando todos ao mesmo tempo, estalaram no ar, tímpanos de uma virgem traída. O granizo, sem pedir licença, descia do firmamento, prece amaldiçoada, e batia com força nos azulejos da sacristia, manchando-os de branco — espuma de raiva divina. Os relâmpagos incidiam sobre os vitrais com a impiedade de punhais, e a abóbada da igreja tremia toda, caveira que recusa a absolvição. E nesse instante — que não foi temor, porque não conheço o medo quando ele é sincero — pus-me a sonhar com Madalena — não santa, mas mulher que nunca deixou de ser corpo.

Sentia-me, nesse delírio, a própria castidade imaculada de cardeal — inchado de fantasmas brancos e de fé mal digerida. E foi invocando Madalena, carne lembrada, que me soube mais profano do que alguma vez teria coragem de confessar. Sentia-me doméstico e herético, homem que passou a vida a esconder chagas entre os missais, a entretecer pensamentos e ímpetos não por ter culpa deles, mas simplesmente porque os tinha, com chama e cera a pingar na pele, sem saber qual dos dois o consome.

Nessa hora, fui um dos que acendem velas e logo depois as apagam com raiva. Ah, crer na sagrada rameira! Mas quem, ao certo, crê nela? Quem lhe imagina as veias? Quem lhe sonha a garganta? E que sabem os sinos, os bancos, os crucifixos do que ela é? Um celário — se tivesse alma — não seria capaz de imaginar mártires nem paraísos. Apenas concluiria, com resignação, que o desejo é veneno lento, e a trovoada um tribunal sem rosto que se desfaz sobre os cínicos.

Ali, naquele momento, compreendi que mesmo os monges mais santos — esses que vivem entre velas e votos — são pútridos, sujos e delirantes quando comparados com a limpidez cortante de uma navalha ou a saúde mórbida de um ferro frio. E eu, enquanto tudo isso me descia pela espinha, verme de luz, permaneci à beira do crime. Fiquei parado, salivante, roído, à espera a tempestade — e ela, por cobardia ou por desdém, nunca chega a cair.

Há teologia que baste no simples acto de rasgar uma Bíblia. Não é preciso mais do que isso. E se me perguntam o que professo sobre o mistério, digo, com a franqueza dos insanos: nem me lembro do que professo. Se a carne me adoecesse verdadeiramente, talvez então pensasse nisso — talvez. Mas, tal como estou, só sei que não sei. Que dogma é o meu, quando sonho visões? Que juízo me resta sobre prodígios e martírios? O que meditei eu, nos recantos do pensamento, sobre hostes e purgatórios ou sobre a fundação mesma do Santo Espírito? Nada. E esse nada basta. Pensar nisso é cerrar por dentro e apagar o altar. É puxar os reposteiros da minha cela — embora nem reposteiros ela tenha —, é engolir o fogo da vela até só restar cera.

O mistério da fé? O verdadeiro mistério é a própria fé. Quem se deita à sombra da capela e fecha os olhos, começa por não saber o que é capela, e acaba por sonhar com crucifixos que escorrem vinho. Mas, ao despertar, vê a capelinha — real, impávida — e então já não pode crer em nada. Porque a capela, em sua pedra muda, vale mais do que todas as bulas de todos os concílios redigidas por todos os clérigos de todas as catedrais. A capela, singela, nada representa a não ser ela — e por isso não falha. É comum. É limpa. É exacta.

O que há de numinoso num confessionário? A de ser de madeira carunchosa, com almofadas sebentas, a de esconder beijos na penumbra — beijos que não se pensam, apenas se buscam. Mas talvez não haja melhor teologia do que essa: a do confessionário. Ele absolve sem saber por que o faz. E não sabe que não sabe. E essa ignorância, esse despropósito, talvez seja a sua única virtude.

Falam-me da constituição interna da hóstia, da intenção última do sacrifício. E tudo isso me parece fumo — fumo e encenação. Absurdo é que tais coisas se levem a sério, tomadas por fundações do mundo. É como discutir a eternidade quando a madrugada trespassa os cortinados e uma faixa de pó dourado se derrama sobre o altar, devorando o incenso antigo e fazendo a luz parecer sacrílega. Pensar na intenção oculta da missa é o mesmo que pensar no veneno ou levar um cálice à boca de um cadáver. O único sentido oculto da missa é não ter sentido oculto nenhum.

Não creio em Deus — e digo-o sem escândalo — porque nunca O senti. Nem quando entrei para o seminário para fugir à aldeia onde cresci e aos avanços do meu tio, nem nos dias em que, com os colegas, fugíamos pelas traseiras para espreitar as raparigas do convento vizinho — órfãs, postulantes ou freiras, tanto fazia —, encobertas por véus e por silêncios mais espessos que as pedras das celas.

Ah, se Deus é o templo, é o corpo da mulher ajoelhada, se é a névoa da manhã, talvez — talvez — eu o tolere. Talvez até o contemple, em silêncio, com a mesma devoção com que se contempla um corpo adormecido. Ou um corpo morto. E se assim for, então a minha vida será um ofício às avessas, uma missa dita entre dentes, uma comunhão feita de olhos cerrados. Mas se Deus é a mulher e o templo, a névoa e o amanhecer, o odor a cera e a madeira, por que lhe chamaria eu Deus? Chamá-lo-ia pelo que é: pele, madeira, fumo e suor.

Porque se Ele se quis fazer carne, se me surge em suor, fumo e madeira, é porque deseja ser tocado dessa forma. E, nesse caso, obedeço-lhe. Obedeço-lhe na transgressão de gesto firme. E chamo-lhe suor, carne, fumo, madeira. E amo-o, sem rezar-lhe. Imagino-o quando a luz falha. Caminho com Ele ao meu lado — com a faca no bolso.

Sempre desconfiei que o próprio acto de cogitar sobre Deus — de o procurar com os alfanges do pensamento — é, no fundo, uma forma de desaforo. Não há maior irreverência do que tentar decifrá-lo. Se Ele tivesse desejado ser compreendido, teria descido do seu esconderijo sem véus nem enigmas, não luz disfarçada por detrás da cortina, mas voz cravada de saliva e nome.
YHVH
 יהוה
Mas pelo contrário: escolheu a sombra húmida do confessionário desabitado, onde só o ranger da madeira atesta presença. Não quer que o entendam — quer que o temam. Quer-nos conhecer os podres.

A nós, cabe-nos ser lúgubres, sim, e inteiros — inteiros como as pedras das pontes, como os lampiões ferrugentos das ruas de outras eras. E é talvez nessa inteireza resignada, nesse chumbo sem chama, que Ele, um dia, nos toque. Não com bênçãos nem com glória, mas com ferrugem — com o dom de nos transformar em vultos de bronze a resistir à tempestade. E talvez nos conceda, por derradeira misericórdia, não uma glória futura, mas um beco sem saída onde o sangue possa escorrer em paz, sem testemunhas nem perdão.

E se me oferecerem a escolha entre o altar e o beco, não hesito — escolho o beco. Entre o véu e a lâmina, escolho a lâmina. Porque ajoelhar — essa antiga penitência que o corpo aprende antes da alma — é vício que se cura, sim, e cura-se com um estalo, seco, sem prece. E quanto à graça, essa palavra tão roída nos lábios dos catecismos, nada mais é do que uma mulher que atravessa a rua sem olhar para trás. Passa. Não volta.

Da minha rua — aquela que desemboca no largo onde os cães ladram aos reclames — veio quanto do inferno é possível farejar neste mundo. E por isso ela, a rua, alarga-se diante de mim, cripta muralhada, imensa, abafada, mais vasta do que qualquer basílica. Porque eu não sou do tamanho da estola que me lançaram ao pescoço em nome de um sacramento: sou do tamanho do abismo que se me estende na moral, do que sonho sem querer sonhar, do que me assalta o espírito, uma febre maligna.

Dentro das igrejas, o ar é magro, medroso, espremido entre as colunas. O quarteirão escuro onde moro — esse sim — é que respira. É ali que o mundo transpira, que os ossos se acomodam melhor. As janelas da igreja são prisões. Empurram o espírito para dentro da carne, e a carne geme sob o púlpito, mula sob carga que não lhe pertence. Ali, onde antes havia consciência, resta-nos apenas o peso nos joelhos. Reduzem-nos a rebanho mudo, limpo de vozes mas sujo de resignações.  
Os seus belos vitrais são cicatrizes de adoração, é verdade.
Mas a porta dos infernos — ah, essa — é a mesma que se abre todos os domingos, com dobradiças de latão e benzedura, enquanto o povo entra de cabeça baixa e missa nos lábios.

Ninguém o diz, mas é sabido entre os mais antigos: quem entra por um lado, pode muito bem sair queimado do outro.
Una eademque porta.
Não tem tímpano nem batente. Dá para a rua, para o húmus, para a realidade que não se ajoelha.

Et nox facta est. 
Et spiritus venit super faciem terræ.  
Et oculus non videt nisi per ignem.  

Num entardecer espesso, de ácido e fuligem, em que o céu se dobrava sobre os prédios como uma mortalha, tive uma visão que me queimou a fronte — não sonho, mas ferro em brasa encostado ao pensamento. Vi-a descer as escadas de uma estação deserta, onde os cartazes se desfazem à chuva, evangelhos esquecidos. Vinham-lhe os pés nus, o véu colado ao suor e o riso solto, salmo virado do avesso. Corria pela calçada, pisando a própria hagiografia e a rasga, pétala a pétala, deixando pedaços de roupa atrás de si, sem remorso e sem nome.

Ela fugira do claustro — não em corpo, que isso é fácil, mas em espírito — porque lá dentro era tudo invenção, liturgia sem hálito, fé sem cheiro de seio, de sombra ou de suor. Nos altares, obrigavam-na a calar-se, a ajoelhar-se, a sangrar em silêncio. Às vezes até lhe pediam que se fizesse estátua, que erguesse um crucifixo nos braços e o sustentasse, vergonha erguida no lugar do deus ausente.

Mas ela, não — ninguém lhe dera nome. Nem pai, nem culpa. Chamava-se apenas “tu” no livro que um dia abri — e jurei nunca mais tocar.  

Et in carne eius, invenitur salus mea.  
Et in voce eius, interdictum.  
Ave Lilith, plena veneni,  
Maledicta tu in mulieribus.

Veio ter comigo na véspera da ceia — e não disse palavra. Eu dei-lhe a hóstia, oferta selada num segredo impossível de esquecer. Ela trincou-a com os dentes da frente, loba que se ri da própria fome. E eu ri com ela. Ela riu. E nesse instante, em que nenhuma doutrina podia mais, o sacrário estalou atrás de nós — estertor divino de um Senhor Deus do Universo cansado de fingir omnipotência.

Sou um apanhador de vísceras. E não me envergonho. Carrego entranhas como quem carrega terços, e os meus rosários são respirações — curtas, urgentes, arrancadas à boca com a ponta dos dedos. Rezo com os punhos, com as gengivas cerradas, com as unhas que se cravam nas coxas, com os pés que não param e com o cheiro que me segue. Rezo com a boca, sim, mas não com palavras — com cuspo.

Murmurar um nome é rasgá-lo com os dentes; saborear a pele de alguém é sabê-la por inteiro, leitura forçada do destino à força de paladar. Por isso, naquela madrugada orvalhada, quando já me sentia exausto de tanto a conter nos pensamentos e nos músculos, deitei-a sobre o soalho frio da sacristia. O corpo dela encaixou no chão, selo antigo numa carta jamais enviada. Fechei os olhos, que ardiam, turíbulos esquecidos, e deixei o meu corpo repousar inteiro sobre o dela — não como quem possui, mas como quem sela. Pedra que repousa sobre o túmulo e o consagra.

Agarrei-lhe o cabelo, cordas do sino do povoado, chamando toda a aldeia para o sacramento. Abri-lhe o ventre com as mãos trémulas, não em violência, mas no gesto de quem abre uma teca onde se guardam os ossos dos santos — com zelo, com pressa e com tremor. Ela nada falou. Mas não era necessário. Porque foi então que soube — e soube tudo. E nessa lucidez súbita, indizível, fui feliz.

— Bom dia, disse eu ao porteiro do prédio, aquele que guarda a portinhola ao lado da paragem de autocarro, onde as manhãs se arrastam de roupão e jornal dobrado, e os dias se cruzam sem dar pela presença uns dos outros. — Está pesado, o céu, não acha?

Ele ergueu os ombros, de quem já viu passar mais nuvens do que rostos, e respondeu-me com a resignação dos que se habituaram à água pelas goteiras e à mudança pelas estações: — Há-de chover. Está no ar. Já ontem o vento uivava. E isto tudo anda pesado anda. Vai desabar, é certo.

— Vai, sim… — murmurei, sem pressa — mas não é só chuva que vem de lá.

Ele franziu o sobrolho, curioso.

— O céu, meu caro, já não castiga com trovão por capricho, nem com granizo por ajuste de contas com as culturas. Castiga porque há séculos que o homem cospe na sua própria natureza. Porque aprendeu a vestir-se em pele cordeiro tendo dentes de lobo, e passou a jejuar por vaidade, não por fé. O céu carrega-se, sim, mas não de nuvens: de paciência esgotada.

Não são os relâmpagos que me assustam, mas os rostos limpos demais, as palavras medidas com esquadro e compasso, os gestos tão estudados que já nem tremem. A humanidade tornou-se perita em viver segundo normas que a ofendem. Oculta os seus instintos com véus de decência, e envergonha-se do sangue que lhe corre nas veias. E quando se deita, não o faz para amar, mas para fingir que ama. Ora o céu — que de tolo não tem nada — vê tudo isso. E responde como pode: com enxurradas, com tremores, com um tédio monumental que se traduz em aguaceiros demorados e chuvas que não lavam nada.

— É mau tempo é… — atirou ele.

— Para quem só olha para o chão, talvez. Mas quem já viu o que há por cima da abóbada reconhece que há ali raiva. Uma raiva antiga, igual à de um pai que vê o filho repetir a mentira que ele próprio inventou. E o castigo não é o relâmpago que parte o pináculo da igreja, mas o silêncio que se segue. A indiferença do céu perante a nossa impostura.

— Então, acha que vai durar? — perguntou, coçando o queixo com dedos de nicotina.

— Vai durar enquanto o homem durar. Ou até este céu, que já foi condenação de profetas e pecadores, decidir que nos apaga de vez. Até lá, a chuva cairá em cima de quem finge. E nós, cá em baixo, continuaremos a dizer que é só o tempo a mudar.

Aquela rapariga tinha um rádio — um desses de plásticos baratos e botões gastos — que tocava tangos nas manhãs de fim de semana. A música saía de lá, trincada por térmitas, eco oco com cheiro a pão requentado e a lençol húmido. Mas os seus tangos, por mais deslocados que parecessem, nunca soaram ao silêncio dos penitentes. Esses têm um eco especial, que mastiga o tempo e devolve o que queremos esquecer com um tom ainda mais nítido.

Para que serve um rádio, afinal? Não sei. Talvez seja bom ter paredes finas. Talvez o melhor seja escutar a cidade: o barulho distante dos motores no semáforo, o pregão rouco de um vendedor de lotarias, o arrastar de caixotes na calçada, os passos apressados a resvalar nas pedras molhadas. Desde essa madrugada em que tudo calou, nunca mais ouvi tangos. O que me chega agora são ruídos humildes: o zumbido cansado do frigorífico da casa ao lado, o estalar ritmado de um aquecedor a óleo, um cão que ladra ao elevador.

No dia seguinte, fui celebrar a missa como de costume. Fiz tudo com a compostura exigida: vesti o paramento, repeti as palavras, parti o pão, levantei o cálice. As pessoas ajoelharam-se, como sempre. O gesto era o mesmo, o fervor simulado. Ela não estava. Mas ninguém perguntou por ela. Ninguém pareceu dar pela falta. No fim, fui lavar as mãos. Com água. Várias vezes. Com cuidado. E pensei, entre gestos: talvez seja isto o arrependimento. Ou talvez não. Talvez seja apenas domingo.