Os 50 Contos de Reis

Quando vieram buscar José Afonso dos Reis, não chegaram envoltos em escuridão, mas pelo crepúsculo, quando a luz ainda se agarrava às esquinas das ruas e o murmúrio do dia se dissipava devagar. Não houve arrombamento, nem gritos, nem pressa. Apenas uma batida educada na porta, tão contida que poderia pertencer a um vizinho discreto ou ao carteiro, trazendo-lhe mais uma encomenda.
Por um instante, ele pensou isso mesmo – talvez fosse um disco importado, ou até uma das suas revistas estrangeiras de conteúdo questionável pelo alto moralismo Estado Novista. Mas ao abrir a porta, não viu vizinho, nem carteiro, nem fardas nem insígnias, apenas dois homens de rostos comuns e fatos simples sem gravata. Nenhuma apresentação formal, nenhum distintivo. Só os olhos – fundos, inexpressivos – possuíam a firmeza de quem nunca precisa explicar ao que vem.

Chamaram-no pelo seu nome – André, mas a realidade era que eles sabiam quem ele era na verdade. Nesse instante, compreendeu, com a clareza brutal de um golpe súbito, que tudo tinha terminado.
A revelação não veio com o choque da surpresa, mas antes com a lentidão opressiva de algo inevitável. Uma lassidão tomou-lhe os músculos, como se o próprio tempo o empurrasse para trás, para um estado anterior à vontade. Abriu as mãos, num gesto que era meio rendição, meio resignação. Os dedos gordos, curtos e trémulos, estenderam-se num movimento flácido, e o suor acumulava-se-lhe nas palmas, como se o próprio corpo excretasse o medo.

Interromperam-no enquanto escrevia mais uma das suas histórias, agora para sempre suspensa entre um pensamento e outro. 
O computador ligado, o cursor a piscar no ecrã, impaciente, esperando por palavras que nunca iriam chegar. No pequeno escritório – o antigo quarto do avô – o caos silencioso das suas obsessões ficara exposto. Livros empilhados ao acaso, discos raros encostados uns aos outros como testemunhas mudas, as revistas abertas sobre a secretária, os seus conteúdos tão explícitos quanto as acusações que pairavam no ar. 

Percebeu, então, sem margem para dúvida, que aquele era o fim. Não havia espaço para fuga nem protestos, apenas a aceitação lenta e amarga de quem sempre soubera que este momento acabaria por chegar. 
Sem resistência, sem um único gesto de desafio, deixou-se levar. Os passos arrastaram-se pela pequena escadaria. Lá fora, um Mercedes preto esperava-o. Inevitável. Tal como ele já tantas vezes imaginara. Entrou sem dizer uma palavra.

***

Como começou? Como foi que André Lourenço assumiu, pela primeira vez, a identidade de José Afonso dos Reis? Era-lhe difícil precisar. Mas sabia que tudo se resumia a dois momentos distintos, mesmo que quase simultâneos: recebeu um novo computador… e viu o seu avô ser torturado.
Torturado? Não, torturado não – castigado. 

O computador era um Ener 2001 o mais recente descendente da primeira linha de computadores portugueses – uma oferta do Estado Novo aos jovens promissores, os futuros Falcões. A máquina, austera e rudimentar, vinha equipada com um simples programa de comunicações e uma lista de números de telefone, para vários Murais Electrónicos de Comunicação – os MECs – espalhados por Lisboa e arredores. 
A primeira vez que André se ligou a um MEC foi na noite do seu décimo terceiro aniversário e era já bastante tarde. Os pais dormiam e a casa repousava num sossego absoluto. A linha telefónica, por fim desocupada, era só sua. Com dedos titubeantes, mas famintos, marcou o primeiro número da lista. O ruído metálico da ligação ecoou pelo quarto, como uma ponte invisível a erguer-se entre ele e algo desconhecido. 

André fez uma descoberta naquela noite que lhe abriu todo um novo mundo. Percebeu que, nos MECs, podia descarregar pequenos programas, ficheiros de texto e até fragmentos de código. Mais do que isso, podia publicar mensagens que outros utilizadores leriam, pensamentos digitais num espaço invisível. Mas, acima de tudo, era livre. Sentiu que estava prestes a entrar numa dimensão oculta, uma espécie de submundo eletrónico onde poderia ser qualquer pessoa – ou ninguém.  

Foi então que escolheu a sua primeira identidade. O seu primeiro nome de utilizador: FalcãoFantasma.

Percorreu as publicações com um crescente entusiasmo, sentindo-se como um explorador a abrir um velho baú cheio de mistérios. Entre mensagens desconexas e discussões acesas sobre temas que pouco lhe interessavam, deparou-se com um ficheiro de texto contendo cento e quinze piadas obscenas e trocadilhos de gosto duvidoso. Algumas eram hilariantes, outras tão absurdas que o obrigaram a reler para perceber o jogo de palavras.
E ali, entre trocadilhos, linhas de código, enigmas e conversas crípticas, encontrou algo ainda mais valioso. Uma lista de números de telefone de outros MECs. Era como encontrar um mapa secreto para um território inexplorado. Diante dele, estendiam-se possibilidades, vastas e imprevisíveis, como caminhos que se bifurcavam no escuro. Sentia-se alguém que acabara de atravessar uma fronteira invisível para um mundo onde as regras ainda não estavam escritas.
E naquele instante, compreendeu: a realidade como a conhecia tinha mudado. Agora, tudo era possível. Tudo!

O Avô, o General Artur Lourenço, habitava o quarto solitário das traseiras, no rés-do-chão, junto ao jardim. Ali passava os dias, uma sombra discreta dentro da casa do filho e da nora, com saudade dos tempos em que finalmente mostrara ao povo o significado da expressão “Quem manda, manda; quem obedece, tem juízo.” No passado, um dos mais temidos e respeitados Generais da Alçada Bélica – a máquina militar reestruturada após a fracassada revolução de 25 de Abril, que o regime jocosamente apelidara de “Reconversão dos Escravos” – Artur Lourenço tinha-se retirado há muitos anos. Agora, passava as horas a construir miniaturas de comboios, com as mãos trémulas a encaixar lentamente as peças com a maior precisão que lhe era possível. Para a família, era pouco mais do que um vulto esquecido, mas em certos corredores da Alçada Bélica, ainda hoje o seu nome era sussurrado com respeito e temor.

Afinal, fora ele o principal arquitecto da purga minuciosa aos pontos de encontro e esconderijos comunistas entre 1975 e 1979. Uma caçada conduzida com um zelo clínico e brutal. O seu consagrado legado sagrado, fora moldado a ferro e sangue, e na família Lourenço, carregava-se essa herança como um dogma. Mas o tempo não perdoa. O General já não era o homem de outrora. E André sabia bem que os pais estavam preocupados com o declínio da sua saúde.

André voltou para casa mais cedo naquele dia, forçado a abandonar as aulas, vítima de uma súbita febre que lhe abrasava a alma e de uma dor de garganta que ia aumentando. A cabeça latejava num crescendo. A casa estava vazia – os pais ausentes – e no rés-do-chão, o avô permanecia no seu quarto, adormecido.

No entanto, assim que empurrou a porta de casa, André estancou. Do fundo do corredor, vindos do quarto do avô, chegavam sons estranhos – uma respiração irregular, como se alguém lutasse por ar, e um murmúrio baixo, quase engolido pelo silêncio da casa. Palavras indistintas, sufocadas, mas carregadas de algo que roçava o desespero.

Ficou ali, quieto, a tentar decifrar o que ouvia. Havia algo perturbante naqueles sons, algo que o arrepiava sem saber porquê. Sentia um acender do peito, uma sensação inquietante — um desalinhar venenoso, que lhe toldava o raciocínio e que não conseguia explicar. 

André avançou pelo corredor, cada passo mais pesado que o anterior. A febre ainda lhe martelava na cabeça, como um tambor surdo, mas agora era um ruído distante, abafado pela excitante tensão que parecia expandir-se dentro dele. A porta do quarto do avô estava entreaberta, e um facho de luz derramava-se para o corredor escurecido, cortando as sombras como uma lâmina dourada. 
Os sons… Vozes… Vozes mais altas agora, mais nítidas. O avô e outro homem, alguém mais jovem. A princípio, tinha-lhe parecido apenas um murmúrio áspero, mas, à medida que se aproximava, as palavras emergiam, afiadas, cravando-se-lhe na mente como lâminas em brasa. Ficariam lá para sempre. Só muito mais tarde perceberia que tinham o tom rígido de um guião bem ensaiado, frases que já tinham sido ditas muitas vezes antes.

– “Tu enojas-me! Tu, velho pervertido e doente! Não és nada mais do que um Comunista nojento!” 

Pela porta entreaberta, André viu o avô – Artur Lourenço – agachado sobre a cama, completamente nu, a pele velha e pálida exposta sob a luz amarela do quarto. As nádegas enrugadas erguiam-se no ar. Sobre ele, de pé, encontrava-se um jovem tenente da Alçada Bélica, robusto e viril, não mais de vinte e cinco anos. A boina militar pousava-lhe na cabeça com precisão, o uniforme impecável, exceto pelo casaco e pela camisa desapertados. 
Na mão, segurava um cinto de couro. E, enquanto falava, deixava-o cair com força contra o corpo frágil do velho general. O estalo da correia fendia o ar antes de se abater sobre a carne, arrancando-lhe gritos que pareciam misturar-se com as palavras do mais jovem, numa melodia perversa de autoridade e submissão.

– “O que és tu?… Eu perguntei, o que és tu, animal?”
– “Sou um Comunista!” – gritou o velho. – “Sou um Comunista asqueroso!”
– “E o que fazemos a Comunistas asquerosos e nojentos?” – perguntou o jovem tenente.
André viu o suor a reluzir no torso musculado do tenente, exposto pela camisa do uniforme desabotoada. O tecido aberto revelava mais do que apenas pele e músculo – no lado esquerdo, bem sobre o coração, estava tatuado o célebre feixe de varas amarradas em torno de um machado, destacando-se no tecido vivo como uma cicatriz de devoção, um símbolo gravado com orgulho, uma promessa singela de obediência absoluta aos mandamentos rígidos da renovada e dita dura ditadura.
– “E o que fazemos a Comunistas asquerosos e nojentos?” – insistiu.
O velho arfava, a voz agora embargada, quase engolida pela doce dor. André viu o rosto do avô afundar-se na almofada branca, os olhos semicerrados num misto de submissão e fervor. Lentamente, virou a cabeça para trás, na direção do tenente, o olhar vidrado de uma devoção que roçava o delírio. Um fio de baba acumulava-se no canto esquerdo da boca trémula. 
– “Castigamo-los!” – disse ele num tom suplicante, mal sussurrado. – “Castigue-me, Tenente. Bata-me. Magoe-me.”
O jovem, cuja expressão até então permanecera impassível, quase desinteressada enquanto o velho mantinha o olhar afastado, alterou-se num instante. Um sorriso lento desenhou-se-lhe na boca, primeiro discreto, depois mais amplo, lascivo. A língua humedeceu-lhe os lábios num gesto lento antes de revelar um conjunto de dentes imaculadamente brancos.
– “Devias ter sido fuzilado nas ruas,” – disse ele, sem pressa. – “Metes-me nojo.”
O cinto subiu e, num golpe rápido, voltou a descer com um estalo seco, rasgando o quarto como uma navalha.
O velho soltou um gemido rouco. 
O estalar do cinto continuava a ressoar, cortando o ar, marcando a carne, um ritmo cruel e incessante.
– “Chega?” – perguntou o jovem tenente, sem interromper o castigo.
– “Não!” – gritou o velho, ofegante. – “Não chega. Não chega! Chaga! CHAGA!”
O cinto voltou a descer, mais rápido, mais forte. Cada golpe carregava mais peso, mais fervor. O quarto reverberava com o choque afiado do couro contra a carne.
– “Sim.” – arfou. – “Sim, SIM!” 

André fechou os olhos e permaneceu ali, estático, por um longo momento, como se o próprio corpo se recusasse a reagir. O sangue martelava-lhe nos ouvidos. Dentro do quarto, o ritmo dos golpes foi abrandando, deixando apenas um vazio abafado no ar.
Respirou fundo antes de abrir os olhos novamente e espreitar para dentro do quarto.
O tenente já não se movia. Estava ali, de pé, imóvel, e olhava diretamente para André. O mesmo sorriso ainda lhe pairava nos lábios. 
Sem desviar o olhar, o tenente ergueu a mão – ele lembrar-se-ia para sempre do anel de ouro, do símbolo em relevo da antiga Legião Portuguesa cravado no metal, dos dedos longos e das unhas impecavelmente arranjadas – e, num gesto surpreendentemente delicado, fechou a porta. 

– “Satisfeito, General Lourenço?” – ouviu através da porta fechada. 
– “Obrigado, Rafael, sim.” – respondeu o avô, a voz firme, revestida da autoridade de outros tempos. Não soava nada como o homem patético que, momentos antes, implorara para ser castigado. – “Espero-o novamente à mesma hora na próxima semana.”
Do outro lado da porta, André ouviu o ruído de movimentos, o ranger subtil do colchão. Recuou rapidamente para a cozinha, sentindo o coração bater com força, descompassado. Segundos depois, a maçaneta girou, seguida do bater de tacão das botas militares de cano alto a ecoar no corredor.
– “Certifique-se…” – ouviu o avô começar, mas o jovem respondeu de imediato, num tom descontraído:
– “Eu sei, eu sei. Sairei pela porta das traseiras.”
André manteve-se imóvel, escutando cada som com atenção. Contou os passos, o ritmo cadenciado das botas que se afastavam, e depois o ranger discreto da porta a abrir-se.
Antes do homem sair, a voz do avô soou novamente do interior do quarto aberto:
– “Tenente Rafael dos Anjos, sei que a sua discrição é exemplar, mas nunca é demais lembrá-lo do que poderá acontecer caso estes nossos encontros cheguem ao conhecimento de alguém que não eu e o senhor. Percebe?”
– “Claramente, meu General.”
– “Não é necessário lembrá-lo das consequências para si, mas obviamente também para os seus. De certeza que a senhora Dos Anjos e o pequeno Rafael Júnior prezam a segurança que o Estado lhes oferece. Hipotecar o futuro de ambos por algo tão irrelevante como…”
– “Não tem absolutamente nada com que se preocupar, meu General.” – interrompeu-o o jovem tenente – “Não só a minha admiração por si cresceu ainda mais nestes nossos encontros como, devo confessar, revelando um lado bastante egoísta da minha parte, que, mais que o que o general me ofereceu inicialmente, o prazer que retiro das nossas reuniões suplanta em muito o medo de qualquer hipotético castigo.”
– “Antevejo-lhe um futuro promissor Tenente. Essa língua de oiro levá-lo-á longe.” – concluiu o avô com uma contida gargalhada. 

André ficou na cozinha, mudo, tenso, como se qualquer movimento o pudesse denunciar. Prendia a respiração sem se dar conta, com medo de produzir o mais ínfimo som. Só quando ouviu a porta das traseiras fechar, expirou cuidadosamente.
O avô não voltou a sair do quarto.
Finalmente, subiu as escadas lentamente, fechou-se no quarto e ligou o computador.

***

Na biblioteca, André deparou-se com um volumoso tomo encadernado em couro, enfiado numa das prateleiras superiores. As páginas amarelecidas continham imagens de Comunistas – figuras de traços austeros, de olhar fixo e postura inabalável. Havia algo de feroz neles, uma dureza que parecia desafiar o próprio papel onde estavam impressos. Até coragem se lhes podia atribuir. Mas não deixavam de ser intimidantes. 
Ele observava-os, dividido entre a repulsa e um fascínio que não sabia nomear. Sentia algo a fervilhar-lhe no estômago, algo indiscernível. Aqueles rostos não desviavam o olhar. Fitavam-no de frente, destemidos, como se nada no mundo pudesse dobrá-los.  Um olhar desafiador, enquanto o seu se perdia, distraído, no rabo do bibliotecário, inclinado a arrumar uma pilha de cassetes VHS acabadas de chegar, dedicadas ao papel da mulher no Estado Novo e ao seu dever sagrado de dona de casa. O tecido das calças esticava-se-lhe sobre as nádegas ao baixar-se, firmes sob a luz mortiça da sala.  

Noutra visita, o bibliotecário apresentou-lhe um documentário antigo e obscuro, Libertem os Cravos, de Manuel Cerqueira. A fita estalava e tremia na tela, mas as imagens que transportava não perdiam força.
André emudeceu, os olhos presos às cenas cruas que se desenrolavam diante dele. Dezenas, talvez centenas de pessoas, tombando sob rajadas de metralhadora em plena praça pública. Corpos suspensos em cordas, os pés balançando ao sabor do vento gélido daquele inverno no final de ‘74. Chamas a lamber carne humana às portas do Palácio de São Bento, enquanto uma multidão assistia – imóvel. Alguns aplaudiam.
O fumo subia, espesso, dissipando-se no céu carregado.
– “Não há muita informação.” – O bibliotecário suspirou e retirou os óculos, limpando-os com a bainha da sua camisola. – “É melhor assim. Iam-nos custando um país.”
– “Sim, senhor.” – disse André. Mas, apesar da resposta obediente, algo dentro dele criava raízes — uma fascinação sombria, crescendo como uma trepadeira negra, espinhosa e insaciável. Era um pensamento que o perseguia, crescendo-lhe na mente como um doce veneno, levando-o a consumir-se sozinho na cama, de olhos fechados, entregue ao desejo e à inquietação de algo que não compreendia totalmente. 

Às vezes, recordava as imagens do documentário — os corpos a cair, os  gritos sufocados pelo negrume do fumo. Outras, era o bibliotecário que o assombrava. Via-o a tirar os óculos, a puxar a camisola para cima, expondo um peito firme, e um abdominal esculpido, a pele morena reluzindo sob a luz fraca da biblioteca. 

Naquela noite, ainda com as imagens do documentário a fervilhar-lhe na cabeça, André entrou em vários MECs locais. Escreveu uma mensagem curta em cada um, procurando saber mais sobre essas criaturas estranhas e esquecidas: os Comunistas…
Nada aconteceu. Nem nesse dia, nem no seguinte. Uma semana inteira passou antes de receber uma resposta. Uma mensagem privada com um número de telefone, um nome de utilizador e uma senha.
Sentado no quarto, esperou que a casa adormecesse. O brilho azulado do ecrã iluminava-lhe o rosto. Quando a quietude tomou conta da habitação, marcou o número e ligou-se ao MEC Comunarquia.

***

Os Comunarquistas chamavam-lhe O Irmão Marx. Além da óbvia e aparentemente inofensiva alusão ao célebre quarteto de comediantes americanos, o nome evocava também o espírito do teórico essencial do Comunismo pairando sobre cada membro do grupo. No MEC Comunarquia, além do Irmão Marx, outros utilizadores reuniam-se com regularidade para reinventar a ligação com essas gentes enigmáticas e distantes, escrevendo e publicando narrativas de vingança e redenção com títulos como Justa Vingança no Tarrafal ou A Fuga de Peniche. Histórias onde campos prisionais se tornavam palcos de justiça tardia, guardas sádicos e agentes da PIDE caíam nas mãos calejadas de ex-presos comunistas. Histórias onde antigas memórias de terror pertencentes a terceiros eram moldadas em fantasias eróticas, pulsantes de fúria e desejo.

Tudo tranquilo, pensou André. A casa estava segura. Estava sozinho.
Trazia uma boina enfiada na cabeça e vestia uma farda de operário cosida à mão por ele mesmo, o fecho aberto até baixo. Estrangulava-se levemente com um lenço vermelho, enquanto se masturbava, a respiração acelerada. Ergueu um punho fechado, mergulhando na fantasia de um ato heroico de resistência. Diante dele, um guarda prisional surgia como uma sombra ameaçadora, o bastão em riste.

Tenho dezanove anos, pensou, enquanto subia o fecho do macacão de trabalho, sentindo uma vaga insatisfação a roer por dentro. As histórias do MEC Comunarquia, escritas pelo Irmão Marx e pelos outros – todas aquelas fantasias que lia – já não lhe bastavam. Deveria…?

Nessa noite, escolheu um pseudónimo, um nome com peso e significado: José Afonso dos Reis. “José Afonso”, em homenagem a um proibido cantautor português. “Reis”, roubado ao apelido da sua primeira paixão secreta, ainda na infância, por um antigo colega de carteira. 
Já não havia dúvidas sobre o que queria fazer, qual era o seu propósito. Sentou-se diante do teclado, os dedos a pairar sobre as teclas por um instante, e então começou a escrever. Quando a manhã chegou, o início da sua primeira história já estava publicado.
Chamava-se O Sobrevivente Vermelho e os Corvos do Estado Novo.

***

O Sobrevivente Vermelho e os Corvos do Estado Novo
Parte I
por : José Afonso dos Reis

“Sabemos o que queremos e para onde vamos: queremos um Estado forte, orgulhoso da sua independência e soberania, livre de influências estrangeiras e imune aos vírus do comunismo e da anarquia.” – António de Oliveira Salazar

Ele conduzia imperturbável ao longo das estradas esburacadas que levavam ao Quartel do Carmo, evitando os raros postos de controlo que a Alçada Bélica dispunha estrategicamente pela cidade após os confrontos e assassinatos. Os tumultos tinham sido silenciados, a insurreição apagada como se nunca tivesse existido. A vitória pertencia-lhes, inquestionável e absoluta. Quanto ao comunismo e à revolução, restar-lhe-ia apenas um destino, de acordo com os fascistas do regime: dissolver-se na poeira da História, reduzido a um sussurro longínquo e irrelevante.
Ele tinha outros planos. Faria tudo ao seu alcance para que o desfecho fosse outro.

Ao sair do carro, o ar fresco de Lisboa trouxe-lhe o cheiro de cinzas de cadáver na brisa. Por um instante, permitiu-se recordar a última vez que ali estivera, quando tudo ainda era esperança e a revolução parecia ao seu alcance. Meses antes de tudo isto. Antes da derrota. Antes do abismo.
Veio-lhe à memória Luís — o brilho no olhar, o sorriso fugaz quando lhe sussurrara uma provocação ao ouvido. Mas tais lembranças não tinham lugar, agora. Com um esforço deliberado, afastou-as e, erguendo o rosto, começou a subir a rua, deixando para trás o peso do que fora e o vazio do que nunca chegaria a ser.

Pouco depois, ergueu-se diante dele o renovado Quartel do Carmo, imponente na sua solidez austera. As muralhas, espessas e frias, guardavam nos seus alicerces de pedra, os ecos de um tempo longínquo, quando o antigo mosteiro gótico, outrora local de devoção, cedera o seu lugar ao rigor da vida militar. Onde antes ressoavam preces, ecoavam agora passos firmes vindos do interior, marcando o compasso da disciplina e da ordem imposta.
O ar, denso e pesado, estava impregnado de um vácuo tenso, cortado apenas pelo longínquo gritar de ordens curtas. As janelas altas, estreitas e sombrias, pareciam fitar a cidade com uma suspeita vigilante, como se Lisboa não fosse um lugar a proteger, mas a controlar.  No pátio central, varrido pelo frio da manhã, ressoavam vozes graves e passos firmes vindos do interior do quartel, ecoando contra as paredes de pedra. O regime ali instalado exalava a arrogância de quem se crê inabalável, como se a autoridade que ali se impunha estivesse destinada a durar para sempre.
Escondeu-se nas sombras.

Havia alguém de guarda à entrada. Um sentinela, talvez? A luz baça de um candeeiro solitário espalhava um brilho difuso sobre a fachada. Ele permaneceu imóvel, atento. O homem levantou-se da cadeira num movimento despreocupado, acendeu um cigarro com a calma de quem se sabe intocável e começou a caminhar, lenta e metodicamente, de um lado para o outro.
Era louro. O cabelo liso, impecavelmente penteado para trás, denunciava um rigor quase obsessivo, cada madeixa contida sob uma fina camada de brilhantina. As laterais estavam aparadas rente, expondo uma face de traços severos — maçãs do rosto vincadas, queixo firme, uma expressão onde nada parecia escapar ao controlo. Vestia um longo casaco negro, que lhe caía sobre os ombros com uma elegância quase teatral, ocultando parcialmente o fato escuro e a camisa de igual tonalidade, fechada até ao último botão.
Nas sombras, ele aproximou-se ligeiramente, observando-o com redobrada atenção. Junto ao tronco viu uma pistola elegante, presa a um coldre meticulosamente ajustado ao corpo.

Não, não era um mero sentinela. Era um dos Corvos do Estado Novo. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Tinha de se lembrar de que aquele homem, por mais distinto que parecesse, era um instrumento da repressão, e um dos seus mais perigosos assassinos. Indiscutivelmente atraente, sim, mas tão letal quanto fascinante. 

A porta abriu-se, derramando um feixe de luz sobre a calçada irregular. Por um breve instante, o som abafado de risos e a melodia distante de um velho rádio escaparam para a noite, antes de a porta se fechar novamente, restaurando o silêncio vigilante.
Um segundo homem surgiu. O cabelo negro, penteado com igual rigor, exibia nas laterais o mesmo corte preciso. Um bigode fino, traçado com a exatidão de um esboço feito a lápis, adornava-lhe o lábio superior, conferindo-lhe um ar de severidade contida. Os sapatos, impecavelmente engraxados, brilhavam sob a luz do candeeiro, e as calças de fazenda negra caíam sem uma ruga sobre as pernas longas. A camisola de gola alta, justa ao corpo, acentuava-lhe a silhueta magra.
No mesmo sítio que o primeiro, via-se o coldre com uma arma. O observador oculto seguiu-lhe os movimentos, atento ao modo como caminhava. Quando os dois homens ficaram frente a frente, executaram uma saudação rígida.
– “Tudo tranquilo, Tenente Rafael?”
– “Tudo tranquilo, Capitão Ferraz !”
O homem mais alto inclinou a cabeça num leve gesto de assentimento. Os lábios finos, meticulosamente desenhados, curvaram-se num sorriso breve, revelando, por um instante, uma fileira de dentes brancos e impecáveis, como se cada traço seu tivesse sido esculpido com igual precisão.
– “Volta para dentro, Rafael. Eu fico de guarda. Precisam de ti na cave para ajudar com os restantes prisioneiros.”
– “Sim, senhor!” – respondeu o tenente, endireitando-se antes de executar outra saudação ao seu superior, desta vez acompanhada por um sorriso. 
Passou a língua pelos lábios, saboreando a antecipação, como se já vislumbrasse o que o aguardava para lá das grossas paredes do edifício. 
Os dois homens aproximaram-se, os rostos tão próximos que quase se tocavam. O homem mais alto manteve-se imóvel por um instante, depois murmurou:
– “Vai. Os prisioneiros… precisam da tua atenção. Deixa-os vivos.”
– “Por mais um bocadinho?” – sussurrou Rafael, num tom que era tanto provocação como súplica contida.
As duas bocas roçaram-se num toque fugaz, mas repleto de intenção – uma fome que nenhum dever ou hierarquia conseguia extinguir.
– “Vai…” – disse o Capitão Ferraz, a voz baixa, mas firme.
Pousou os dedos elegantes sobre os ombros de Rafael, deslizando-os depois ao longo do tecido até lhe retirar, com uma lentidão deliberada, o casaco comprido. O observador oculto sentiu um estremecimento de excitação percorrê-lo de alto a baixo, um impulso involuntário que o desconcertou.
Sem pressa, o Capitão vestiu-o. Depois, ergueu o olhar e repetiu, desta vez sem margem para desobediência:
– “Vai!”
Agora era uma ordem.
Rafael obedeceu sem hesitação, desaparecendo para o interior do Quartel e fechando a porta atrás de si. O observador oculto permaneceu imóvel, os olhos fixos no homem que permanecia ali, sozinho.
Era o momento de agir.
Emergiu das sombras com determinação, os passos firmes e rápidos em direção ao Capitão Ferraz. 

CONTINUA

***

André Lourenço, sentindo-se cada vez mais José Afonso dos Reis do que ele próprio, estava sentado na cave do Departamento de Pesquisa e Novas Tecnologias da Universidade de Lisboa, transformada em laboratório de informática.
Trabalhava num sistema de correio eletrónico viral de propaganda, um projeto do seu grupo, batizado de Corrato – uma ferramenta de publicidade em massa, concebida para promover apenas os produtos aprovados pelo regime. O propósito daquilo pouco lhe importava. O que lhe interessava, no fundo, era escrever. E escrevia. Isso bastava.

O laboratório estava vazio, mas quente. Sentia-se sempre bem ali, como se o espaço existisse apenas para ele. 
Lá fora, a chuva caía em cortinas finas. Pela janela embaciada, distinguia vagamente o seu carocha a ser lavado pelo aguaceiro – um banho merecido, cortesia da Natureza. 
Ali dentro, reinava uma paz reconfortante. Um abrigo. Um mundo à parte. 

Levantou-se e, por precaução, lançou um olhar rápido ao redor. Nada. Nenhuma presença, nenhum som além do murmúrio baixo das máquinas. 
Tirou o lenço vermelho do bolso e atou-o ao pescoço num gesto quase cerimonial. Depois, voltou a sentar-se diante do teclado. Um formigueiro percorreu-lhe o corpo, dos ombros até à ponta dos dedos. 

A sua história tinha sido bem recebida, e a simples ideia fê-lo esboçar um sorriso. Mais do que qualquer outra forma de recompensa, era agora a validação dos leitores que o impulsionava, que o fazia querer escrever mais.
No MEC, a sua história acendera um debate animado. As reações iam desde o entusiástico “Continua, está realmente bom!” até às análises meticulosas dos que dissecavam cada detalhe – seriam as roupas historicamente adequadas? E a premissa escolhida por José Afonso, faria sentido naquele contexto?
Mas o mais importante era o interesse que despertava. Entre os comentários públicos, havia mensagens privadas, garantindo-lhe que a sua história os tocava como, em tempos, as do Irmão Marx e dos outros o haviam tocado.
Também lera “Demasiado secante.” O comentário ficou-lhe na cabeça, ecoando como um desafio. Talvez tivessem razão. Talvez pudesse ir mais longe. Com um meio sorriso, Reis concedeu-se uma nova liberdade enquanto começava a escrever a segunda parte – mais curta, mais afiada – de algo que já via como uma série contínua. 

Escondido na cave, José Afonso dos Reis esqueceu-se dos outros. Naquele momento, escrevia apenas para si. 
O lenço vermelho envolvia-lhe o pescoço como um lembrete silencioso, e ele tocou o tecido ao de leve. O peito ardia-lhe, e os seus lábios tremiam ligeiramente, sem que o pudesse evitar. 

***

O Sobrevivente Vermelho e os Corvos do Estado Novo
Parte II
por : José Afonso dos Reis

– “Pare!” – A voz do elegante oficial soou firme, enquanto erguia a arma, apontando-a diretamente ao peito do recém-chegado.
Os olhos percorreram-no com um escrutínio calmo, quase ávido, como se procurassem algo mais do que uma simples ameaça.
O Sobrevivente Vermelho não vacilou. Com gestos controlados, ergueu as mãos devagar até à altura dos ombros, num sinal de rendição estudada. Na mão esquerda, segurava uma carteira de couro castanha, marcada pelo uso. Os documentos no seu interior tinham-lhe custado uma pequena fortuna meses antes, adquiridos das mãos cautelosas de um velho falsificador em Évora.

– “Inspector-Chefe Fausto da Maia, PIDE.” – disse, com uma calma impecável, enquanto continuava a avançar, segurando a carteira com firmeza, sem pressa nem hesitação.
O seu olhar, frio e meticuloso, percorreu o homem à sua frente com uma atenção quase cirúrgica. Navegou lentamente pelo contorno do abdominal definido, subiu pelo queixo elegantemente esculpido e deteve-se por um instante na boca bem desenhada, o lábio superior ligeiramente sombreado pelo fino traço do bigode. Por fim, encontrou os olhos do outro e algo neles se tinha alterado. 
Surpresa? Antecipação?… Medo?

Deteve-se a escassos passos dele, baixando os braços com naturalidade enquanto deslizava a carteira de volta para o bolso. Observou, sem surpresa, o Capitão Ferraz guardar apressadamente a arma no coldre, num gesto quase instintivo.
– “Senhor Inspector… eu não sabia…” – a voz tremia, insegura.
O azul dos seus olhos, que só agora distinguia, brilhou num lampejo de desafio e o Sobrevivente Vermelho não hesitou. Não podia dar-lhe tempo para pensar, para reagir.
Num gesto rápido e seguro, estendeu a mão e agarrou-lhe o braço, puxando-o bruscamente para junto de si. Os rostos ficaram perigosamente próximos, tão perto que quase se tocavam.
– “Não me subestime, Capitão.” – murmurou num tom aveludado escondendo a ameaça subjacente. Ferraz esforçou-se por manter o controlo, mas a respiração, agora irregular, atraiçoava-o.
– “Estou aqui para inspecionar, julgar e castigar. O Estado sabe muito bem que vocês, militares, não são gente de confiança.”
– “Mas, Inspector, os Corvos são…”
– “Os Corvos são uma força militar.” – interrompeu-o de imediato o Sobrevivente Vermelho, puxando-o para ainda mais perto, os corpos agora colados.
Num murmúrio íntimo, proferido junto ao ouvido do Capitão:
– “E numa força militar… não se pode confiar. Ou vai-me querer contrariar … Capitão?”
O homem permaneceu calado, mas o seu olhar denunciava mais do que as palavras que se recusava a pronunciar.
– “Nós temos de estar sempre em cima de vocês. E, caríssimo… a mão da PIDE…” – num gesto insinuante, agarrou gentilmente o chumaço volumoso que se começava a evidenciar sob a fazenda preta das calças bem cortadas de Ferraz – “… estende-se por um longo e duro caminho.” 

O Sobrevivente Vermelho soltou-o, recuando ligeiramente para o encarar enquanto ele se tentava recompor. Ferraz inspirou fundo, os ombros ainda rígidos, a expressão esculpida em controlo estudado. 
– “À minha frente. Vamos.” – O tom do Sobrevivente era seco, inquestionável. 
Com um gesto firme, indicou-lhe a escadaria que conduzia ao interior do Quartel. Esperou alguns instantes, ajustando meticulosamente as luvas de cabedal, dando-lhe tempo para recuperar. Mas não demasiado. 
– “Não me faça repetir.”
O silêncio estendeu-se entre os dois enquanto Ferraz começava a subir os degraus com a mesma elegância imperturbável de antes. O casaco, que minutos antes cobria os largos ombros do Tenente Rafael, fazia-o parecer menos corvo e mais vampiro.
Seguiu-o para o interior do Quartel do Carmo, para junto dos outros Corvos do Estado Novo e fechou a porta suavemente, contra a escuridão lá fora. 

No recanto onde, momentos antes, o Sobrevivente se ocultara entre as sombras, repousava agora um cravo vermelho, deixado pela sua própria mão, como uma promessa surda. 

CONTINUA

***

– “Oh, claro que sim. Claro que fiquei satisfeito com a identidade falsa do Sobrevivente Vermelho, o nome que dei ao inspetor da PIDE.” – disse André, exibindo um largo sorriso.
– “As tuas referências são de uma categoria… De onde tiraste o Fausto?” – perguntou Carlos, ajeitando os pesados óculos de massa. 
Além de amigo próximo, Carlos era colega de André. Trabalhavam juntos no departamento de segurança informática do Banco de Portugal. Sentado à mesma mesa, ligeiramente inclinado para a frente, com os braços cruzados e um olhar curioso, estava Fernando, irmão de Carlos e dono de um quiosque a poucos metros do Banco. Aproveitara a pausa de almoço dos dois para finalmente conhecer e debater com o infamoso autor de contos e célebre “agitador anarquista” José Afonso dos Reis.
– “Juntando os nomes de Fausto Bordalo Dias a uma singela homenagem a Salgueiro Maia. Um, uma figura obscura da música alternativa pré-revolucionária. O outro, a figura mais marcante da quase revolução” – respondeu André.
– “Deus do Céu.” – interrompeu Fernando – “O regime diz para nem sequer pensarmos no nome de … “ – calou-se.
– “Salgueiro Maia?” – desafiou André.
Fernando estremeceu ao ouvir o nome e lançou um olhar rápido por cima do ombro. Ninguém os escutava. A rua, de forma atípica, estava quase deserta.
Baixou um pouco a voz antes de continuar:
– “Sim, esse. Estamos proibidos de sequer pensar nesse nome, quanto mais dizê-lo em voz alta.”
– “O que é a vida sem um pouco de pimenta e a ventura da aventura caríssimo Fernando?” – dizia André enquanto beijava a chávena da bica.
– “Eu cá, nunca ouvi falar desse Fausto.” — disse Carlos. — “Quando tomaste para ti o nome de José Afonso, já tinha ouvido falar dele, claro. No teu conto, Godinho de Coração Magrinho por Vocação mostraste-me que o personagem principal era uma homenagem a Sérgio Godinho e lembro-me de passarmos horas e horas a ouvir as tuas valiosíssimas importações em vinil d’Os Sobreviventes e do Pré-histórias.”
– “Importações?” – admirou-se Fernando – “Como assim, importações? Não se consegue importar nada de nenhum d’Os Censurados. São artistas proibidos pelo regime.”
André sorriu, inclinando-se ligeiramente para trás.
– “É preciso saber.” – disse, com um certo ar de bazófia.
– “Sabes que o nosso estimado autor não se limita a usar truques engenhosos para ocultar a identidade nos MECs.” – acrescentou Carlos. – “A sua habilidade para escapar a qualquer tipo de controlo quando se trata dos seus apimentados e requintados sabores artísticos – e não só – é simplesmente soberba. Claro que, no final, acaba sempre com o lixo cheio de capas falsas e autocolantes de artistas aprovados pelo Estado, cuidadosamente colados sobre os verdadeiros..”
– “O nome também ajuda. Não se é tão meticuloso com um Lourenço.” – comentou André.
– “ Verdade, sim senhor. Quer dizer, calculo que seja. O seu avô era uma lenda do Estado Novo. E o seu paizinho que Deus tenha, não se ficava atrás.” – disse Fernando com um aceno.
André continuou.
– “Mas perguntas, querido Carlos, quem é Fausto. Quem … é … Fausto?! Ora pois claro. Nome oculto de incautos incultos como vossa excelência o é.”
– “Oh, cala-te e diz-me.”
– “Fausto. Fausto Bordalo Dias. Na verdade, creio que tenha apenas um par de álbuns editados, mas tornou-se uma celebridade no circuito clandestino da contra-cultura portuguesa – e isso chamou-me e muito a atenção. Em 1982 lançou em cassete um conjunto de canções que depois distribuiu anonimamente, na bela arte da mão em mão, de nome Por Este Rio Acima. E esse, meu caro, é o Santo Graal dos discos da contra-cultura rebelde.”
– “Quero ouvir.” – disse Carlos.
– “Tu e eu,” – continuou André – “mas tal objecto de culto está praticamente extinto. Ainda não perdi as esperanças, mas acho tremendamente difícil conseguir achá-lo. Quase tão difícil como foi encontrar um conteúdo decente para o miolo da história do Sobrevivente Vermelho. Queria dar a sensação de que algo importante ia acontecer, que a tensão era palpável.” disse André.
– “Ah. Foi palpável. Foi bem palpável.” – disse Carlos com um sorriso. Fernando riu-se nervosamente, dizendo depois:
– “Eu também gostei muito do seu PIDE Mais Que Eu Dou e do… como se chama? Ah sim, Dita Dura Peniche. Ambos bastante ousados, penso eu.”
– “Espero bem que sim.” – disse André. Continuavam sós. A rua era beijada por um suave frio de inverno.
– “E achei que Em Novo Estado Desgraça foi quase poético.” – disse Carlos. Era fã desde o primeiro conto. – “Pena que O Sobrevivente Vermelho tivesse de chegar ao fim.”
– “Já não tinha energia para continuar. Não havia muito mais a dizer depois da cena no interior do Quartel.” – respondeu André.
O último e mais escandaloso capítulo de O Sobrevivente Vermelho e os Corvos do Estado Novo fora publicado exatamente na altura em que arranjou emprego. Pouco tempo depois, os seus pais morreram num acidente de automóvel, a caminho de uma pequena aldeia no Norte do país, onde iam visitar familiares afastados. Desde então, André morava sozinho na casa da família.
– “A sequência final do massacre levado a solo pelo Sobrevivente logo após a orgia entre os Corvos, a PIDE e os mais altos nomes do Estado…” – disse Fernando, pausando por um instante. – “Foi épica!” – Ele tossiu e baixou o olhar. Continuou hesitante – “Então… e em que está a trabalhar agora?”
André sorriu. Era um sorriso estranho, quase etéreo.
– “Eu mostro-vos,” – disse. – “O quinquagésimo conto ficará para a história. Venham a minha casa na próxima semana. Envio a morada ao Carlos por correio eletrónico.” 

Acabaram os cafés sem mais conversa, deixando os olhos seguir, discretamente, um pequeno grupo de universitários que passava por eles. 

***

A casa de André era acolhedora, com uma vedação branca que antecedia uma pequena escadaria de pedra. Situava-se num subúrbio tranquilo de Lisboa, o relvado à frente sempre bem aparado.
Mas quando Carlos lá chegou, sozinho – depois de esperar em vão pelo irmão no mesmo café onde os três se tinham encontrado após o almoço há uma semana – sentiu um aperto no estômago. André tinha desaparecido. 

Quando Carlos entrou, não encontrou sinais de arrombamento ou desordem. A porta estava entreaberta, o antigo Ener 2001 de André ainda ligado, o programa de processamento de texto aberto no ecrã, a história interrompida a meio de uma frase. A sua última história jazia inacabada, abandonada.
Revistas homoeróticas, livros e discos importados estavam espalhados sobre a secretária, intocados. Tudo estava no lugar, como se André simplesmente se tivesse levantado – talvez para abrir a porta – e nunca mais voltado.

A história tinha por título José Afonso dos Reis nos Calabouços da PIDE e começava da seguinte forma:

***

José Afonso dos Reis nos Calabouços da PIDE

Quando vieram buscá-lo, não chegaram envoltos em escuridão, mas pelo crepúsculo, quando a luz ainda se agarrava às esquinas das ruas e o murmúrio do dia se dissipava devagar. Não houve arrombamento, nem gritos, nem pressa. Apenas uma batida educada na porta, tão contida que poderia pertencer a um vizinho discreto ou ao carteiro, trazendo-lhe mais uma encomenda.
Por um instante, ele pensou isso mesmo – talvez fosse um disco importado, ou até uma das suas revistas estrangeiras de conteúdo questionável pelo alto moralismo Estado Novista. Mas ao abrir a porta, não viu vizinho, nem carteiro, nem fardas nem insígnias, apenas dois homens de rostos comuns e fatos simples sem gravata. Nenhuma apresentação formal, nenhum distintivo. Só os olhos – fundos, inexpressivos – possuíam a firmeza de quem nunca precisa explicar ao que vem.

Nesse instante, José Afonso dos Reis compreendeu, com a clareza brutal de um golpe súbito, que tudo tinha terminado.
A revelação não veio com o choque da surpresa, mas antes com a lentidão opressiva de algo inevitável. Uma lassidão tomou-lhe os músculos, como se o próprio tempo o empurrasse para trás, para um estado anterior à vontade. Abriu as mãos, num gesto que era meio rendição, meio resignação. Os dedos esguios, estenderam-se num movimento plácido, e o suor acumulava-se-lhe nas palmas, como se o próprio corpo excretasse o medo.

Interromperam-no enquanto escrevia mais uma das suas histórias, agora para sempre suspensa entre um pensamento e outro. 
O computador ligado, o cursor a piscar no ecrã, impaciente, esperando por palavras que nunca iriam chegar. No pequeno escritório o caos silencioso das suas obsessões ficara exposto. Livros empilhados ao acaso, discos raros encostados uns aos outros como testemunhas mudas, as revistas abertas sobre a secretária, os seus conteúdos tão explícitos quanto as acusações que pairavam no ar. 

Percebeu, então, sem margem para dúvida, que aquele era o fim. Não havia espaço para fuga nem protestos, apenas a aceitação lenta e amarga de quem sempre soubera que este momento acabaria por chegar. 
Sem resistência, sem um único gesto de desafio, deixou-se levar. Os passos arrastaram-se pela pequena escadaria. Lá fora, um Mercedes preto esperava-o. Inevitável. Tal como ele já tantas vezes imaginara. Entrou sem dizer uma palavra.

Os dois agentes da PIDE sentaram-se à sua frente no carro, as camisas ensopadas de suor, colando-se-lhes ao peito sob o calor abafado que se fazia sentir no habitáculo. 
Os lábios carnudos de ambos esboçaram o que quase parecia um sorriso – um esgar ambíguo, quase convidativo, quase meigo. Não fosse o castigo iminente.

– “O que vão fazer comigo?” – sussurrou ele, mordendo o lábio inferior quase sem se aperceber.
O homem à sua esquerda retirou lentamente o cinto de couro. Estalou-o no ar uma vez, antes de o passar pelos dedos numa carícia lenta, quase terna.
– “O que vamos fazer contigo?” – perguntou ele.
Olhou pela janela por um momento, como se saboreasse a antecipação, e depois voltou a encará-lo.
– “Vamos ensinar-te o que realmente significa” – fez uma pausa, inclinando-se ligeiramente para a frente  – “ser tratado como um comunista nojento.” 

O carro arrancou suavemente, percorrendo a estrada até desaparecer no final da rua, seguindo em direção a…

***