Se houvesse um alimento único, aquele que me acompanharia até ao fim dos dias, seria o ovo. Afirmo-o convictamente.
Em todas as suas múltiplas encarnações. Cozido oito minutos, centro sóbrio; seis, coração a oscilar. Escalfado, redemoinho breve a fechar-se sobre a gema. Mexido, paciência ao lume baixo até creme. Estrelado, ouro no miolo e renda nas bordas. A cavalo, a coroar arroz ou bife. Omeleta dobrada, segredo no interior. A vapor, pele macia. Ao forno, timbre discreto. Em pickles, memória aguçada. Em massa de bolo, desaparece para sustentar outra arquitetura. Em maionese, pacto entre óleo e pulso. Ovos moles, convento a tintar colher. Pudim, anel de caramelo. Molotof, nuvem presa pela teimosia do ar. Aceita quase tudo, desde que a temperatura fale em voz baixa.
A velha charada regressa: quem antecede quem, galinha ou casulo calcário? O pêndulo puxa-me para a ave. Mas … A ave vem de uma célula; a célula, sozinha, já é anúncio. Pergunto-me: será o ovo uma célula com provisões e armadura? A biologia encosta a cadeira. A gema é ovócito cercado por anexos generosos, logística para um arranque sem empréstimos. Um dia, algo quase galinha deposita um invólucro onde a minúscula correção genética se fixa; ao eclodir, o nome ganha corpo. O oval é delegação; a ave, delegante.
O objecto em si pede atenção. Não exibe arestas. Uma ponta mais fina, outra mais plena, eixo sem régua. Na palma, porcelana porosa. À janela, transluz pontos de respiração. Ao ouvido, nada. Tento equilibrá-lo na mesa: às vezes sustenta-se, outras cede. A gravidade tem humor. A concha rende-se à pressão mínima; o estalo dura menos que uma sílaba e muda o estado do mundo.
A arte tomou nota. Egg, banda prog londrina de 1968. Mr. Bungle, faixa “Egg” em ‘91. Piero della Francesca, ovo de avestruz suspenso na Brera. Dalí, “Geopoliticus”. Jeff Koons, “Cracked Egg” em brilho total. Fabergé, ovos-joia.
No frigorífico, meia dúzia. Umas joias de ovos. A porta abre-se com um sopro. Os dedos escolhem um castanho ligeiro, pintas que tranquilizam. A data impressa não é poesia, é compromisso. A frigideira espera. O óleo aquece, forma um espelho rugoso; a casca cede; a clara estende-se; a gema pousa intacta. A cozinha encolhe a metafísica para o tamanho de uma colher. Entre sal antes ou depois, azeite ou manteiga, lume médio ou baixo, descobre-se uma ética breve: decidir, observar, parar a tempo. De cada vez, um ponto exacto. De cada erro, um método.
Volto à ideia de origem sem a nomear. Dentro deste astro doméstico mora um parentesco antigo: alimento imediato e arquivo de instruções. Se não o quebrasse, a casca tornar-se-ia porta. Ao parti-lo, condeno uma possibilidade e sustento outra. O gesto não pede drama; pede responsabilidade miúda. Comer é tomar partido.
A mesa cede lugar ao microscópio da imaginação. Uma esfera maior do meu próprio início, membrana discreta, reservas em redor. O óvulo humano. Tudo o que sou encolhido a um ponto com paciência. Outra célula chega de viagem, carrega meia história, perfura, deposita senha. Os códigos tocam-se, erguem relógios, dividem-se. Nada de trombetas. Química, tempo, acaso, sequência. O corpo futuro começa a contar sem verbos, apenas aritmética de multiplicações. A certa altura, alguém dirá eu. Antes disso, uma onda de divisões silenciosas.
A esfera na mão e a esfera no início trocam sinais. A primeira alimenta a manhã; a segunda acende linhagens. O redondo, repetido, liga a cozinha à árvore familiar. A casca vazia, duas metades na bancada, lembra uma caveira alegre, memento sem peso. Aproximo-a do ouvido; mantém o silêncio das coisas que já se cumpriram.
