Princípio da tarde, no Porto. O céu por cima dos telhados tem um tom de cinza gasto, e eu apoio os cotovelos no parapeito do meu quarto andar, entre roupa a secar e antenas, à espera de qualquer coisa que preencha este ar parado sobre a cidade. De baixo chega um rumor de travões, pregões, passos apressados na calçada; de cima chega outra espécie de trânsito, mais antigo e desordenado, feito de batimentos de asas, curvas em arco, súbitas quedas sobre cornijas e cabos eléctricos. São pombos, incontáveis, e gaivotas vindas do lado da foz, arrastando com elas um restolho de sal e vento que fere os olhos.
Durante anos foram para mim uma massa indiferenciada de penas e ruído, mas ultimamente dou por mim a seguir-lhes as rotas, a medir-lhes a insistência. Os pombos enchem as praças, ocupam os beirais de granito, forram de manchas brancas os ombros das estátuas; a cidade tolera-os e detesta-os ao mesmo tempo. Há quem jure que trazem doenças, que transportam parasitas invisíveis entre as pedras seculares, que são, no fundo, ratazanas aéreas, adaptadas a qualquer fresta de cidade, alimentadas por migalhas de pão e descuido humano. No entanto, na azulejaria das fachadas, nos vitrais das igrejas, nas estampas que se vendem, uma ave semelhante abre as asas sobre cabeças aureoladas, paira sobre um Cristo magro e luminoso, derrama faíscas de pureza sobre o baptismo de um desconhecido. A mesma família de penas cinzentas, dois destinos opostos: no chão, o bicho que esgaravata lixo; nas paredes, a embaixada da paz.
O que me intriga não é a contradição entre estampa e realidade, mas a facilidade com que o olhar salta de uma para a outra, sem se deter. Vejo um pombo pousado no corrimão enferrujado da varanda em frente, o pescoço a estremecer numa cadência nervosa, olhos que parecem dois grãos metálicos cravados numa massa de carne, e recordo o desenho perfeito que conheci em criança, uma figura branca rodeada de raios dourados, tão serena que nem o vento lhe mexia nas penas. A palavra paz colada àquela imagem ainda hoje atravessa os discursos e as praças, pintada em muros ou em bandeiras, ao mesmo tempo que o seu representante vivo arrasta uma asa partida no meio das pontas de cigarro. A cidade encolhe os ombros, rengueia com ele, continua.
E ali? As gaivotas, anunciadas por gritos agudos que rasgam o ar por cima do casario. Seguem o declive do Douro, atravessam pontes numa diagonal invisível, trazem do lado do mar um brilho húmido nas penas. Pairam sobre os contentores de lixo, disputam restos de peixe com os pombos, executam manobras arriscadas sobre as mesas das esplanadas; a distância que as separa das ondas diminui a cada ano, e agora o mar entra na cidade através delas. Nos dias claros, da minha janela avisto uma faixa de azul desbotado, lá onde as casas se interrompem; nesse intervalo, a mente escorrega, imagina cardumes, correntes, longas migrações. No entanto, aqui em cima, a vida dessas aves resume-se a voltas sobre o mesmo quarteirão, ao mesmo cimo de igreja, ao mesmo telhado de zinco aquecido pelo sol de Inverno.
Ao fim da tarde, a luz pousa sobre o granito húmido, e o Porto assume um ar de cidade recém-lavada que nunca se cumpre até ao fim. A chuva recente escorre pelas sarjetas, arrasta cascas de fruta, beatas, fios de cabelo; por cima desta matéria o reino alado reorganiza-se. Vejo pombos a desenhar círculos largos acima dos telhados, a escolher uma cornija onde passar a noite, vejo gaivotas a seguir o rasto das últimas carrinhas do peixe, a rondar as traseiras dos restaurantes. A certa altura, a distinção entre os dois bandos começa a perder nitidez; manchas em movimento, asas que batem, um contorno irregular sobre o fundo que escurece. Nessa confusão, a velha ave da paz mistura-se com a ratazana aérea, o pássaro bíblico funde-se com o glutão que devora sobras, a mensageira do mar junta-se ao mendigo da praça.
Fico ali até que o primeiro candeeiro se acende e o céu se torna uma placa uniforme, sem gradações. As aves perdem espessura, reduzem-se a sombras rápidas que cortam o círculo amarelado da luz eléctrica. O mar continua ao fundo, invisível mas presente, empurrado para dentro das ruas pelo eco dos gritos das gaivotas. Os pombos já quase não se distinguem do cimento, confundem-se com a textura rugosa das fachadas; apenas o bater de asas denuncia, por instantes, a sua existência insistente. Entre a promessa de paz que se vende em postais e o tumulto sujo das praças, a cidade mantém-nos a todos em suspensão, partilhando com estas aves um território que nunca chega a pertencer inteiramente a ninguém.
