Não reparei na cascada casa no antigo monte em cascata, embebida em vinhas vindimadas noutro século, agora um túmulo de estacas ao alto como o santo nome de Deus. Eu não reparo nela, nem ela em mim. Pode-se depreender pois então, que sou distraído. Padeço de ideias anacro-anárquicas e ainda por cima perco-me em carrosséis de pensamentos irrelevantes. Digo, irrelevantes para os outros. Tragédias que nunca irão acontecer mas poderão acontecer se tudo o que se me passa no pensamento acontecer. E aconteceu… Acontece. Teço redes e redes de complexas malhas de bailes catastróficos. Bits, ai, tscs que na mente de alguém dito normal – … não! Normal não… hum… menos distraído em si mesmo. – seriam uma proeza da imaginação.
O comboio acabara de chegar à estação de Verde Bilha. Eu descia a passos largos, para a Forca. Não a que figurativamente me aperta o gargalo durante este meu último suspiro, nem a minha antiga esposa que me forçara a enviuvar-me demasiado cedo, mas sim a terra de meus avós.
Forca é um sítio morno situado no interior do nosso belo Lisbugal. A temperatura não tem nada que ver com a adjetivação usada. Usei morno como podia ter usado insosso, mas nunca me recordo ao certo quantos “S” hei-de usar na última. E como opto por escrever isto na eminente iminência do meu tardio final destino parental, quero evitar a menor das corrreções possíveis. Sendo assim, in destino grosso aqui na frente, que já sinto a arder-me o delgado, sigo adjetivando conforme sei e como a febre que me assola e consome me vá permitindo lembrar e articular.
Dizia eu, antes de me perder, o que com toda a certeza poderá acontecer múltiplas vezes neste meu semibreve relato, fruto d’ourado que me tolda as fontes, que descia a passos largos para a Forca.
Sentei-me prudentemente à distância de um calo, calo e meio, a contemplar a almofada de boa vida que bailava aldeia adentro. Gentes primitivas em rodas primárias a acarretar boas lembranças da condição humana sem mentiras absolutas. Rodélia ordenhava uma amarela e quase ficava sem um braçado de couves no processo, quando a dita bovina, gorda como tudo, tossiu para cima da dona e esta atirou o cesto ravina abaixo, até ao rio. Amarela zangou-se e partiu aos rebolões até às couves. De castigo, Rodélia foi amputada do ombro para baixo, que para cima estão as Virtudes (vizinhos antagónicos dos Forcados). Amarela disse que a irmã podia ficar com o antebraço e com a mão, mas dado que as ciências médicas eram de curta vista por aquelas bandas, optou-se pela solução mais prática para ambas. Meteu-se o bracinho num belo frasco de metro e meio de altura, cheio de um líquido qualquer lá dos doutores e ficou resolvido. E dizia-se pela Forca, antes e depois: “maneta desde o ombro, não há nisso qualquer assombro”.
Não eram os primeiros casos de erros naquela terra a serem resolvidos assim. Ah, não me façam falar, que precisava adiar o destino e mais uns quantos, para vos contar. Mesmo assim, menos uns tantos que nas Virtudes. Os Virtuosos, ficavam-se pelo nome e praticavam o ofício de herrar tanto quanto possível. Mas sabiam bem abafar o menino, com a arte da palavra. Dom que vinha desde os tempos das Rodélias magras, engordadas com as mais facínoras patranhas dos Virtuosos.
Mas antes de o verem dito, sentença e julgamento progenitor, posterior ao rebolão, entro eu no café do Estevão, santo do tinto e da bejeca.
– “Meu rico menino, bons olhos te vejam. Trinta e muitas voltas ao sol e estás na mesma, caraças.”
Disse-me ele antes que os maus olhos dos outros me pudessem esculpir um fado de cuspo, suspiros e olhos rebolados.
– “Então Santinho. Essa vida?”
– “Nunca pior. Aqui Del-rei ainda não nos passou o atestado de vila vistosa, então continuamos nas jardinagens e assento de tijolo.”
– “Diabo do Aqui. Falassem antes com o irmão. Esse por uma bênção semanal tua aqui no café, facilitava a coisa.”
– “Dizes tu. O velho Acolá não tem o mesmo peso do irmão. O figurativo, que de comer e beber, sabe o homem muito, como dizes e bem. Já se lhe saiu o Diabo do corpo umas três vezes e continua igual.”
– “A paternidade tem dessas coisas.”
– “Que sabes tu oh solteirão?”
– “Ui, não ouviste Santo?”
– “Não me digas.” – disse Estevão de boca aberta.
– “Verdade. Tive três. Mas matei-os no primeiro mês.”
– “Então?”
– “Oh…” – suspirei eu – “Faziam muito barulho com a boca e tinham o lado direito da cara a fazer um ângulo esquisito.”
– “Os três?”
– “Os três.”
– “Isso era normal noutros tempos.” – disse um jovem encostado à ombreira da porta lateral, de casaco de tweed lilás, botas de montar num castanho bem mais escuro que as calças justas de cabedal e boina verde para trás. O tronco despido, depilado, brilhava suado à luz do sol.
– “Raul?” – perguntei.
– “Sou sim senhor. Mas o reconhecimento é unilateral.”
– “Sou o Sancho. Sancho Pado.”
– “Sancho?” – disse ele de rosto iluminado. – “Como estás amigo?”
– “Nunca pior. Aqui Del-rei ainda não me passou o atestado de vida vistosa, então continuo nos amuos e acentos de patadas.”
– “Falas dos teus filhos? Que encrenca.”
– “Quem os teve que tome conta deles, não é? E foi o que fiz. Era capaz de me sair o mundo pelas mãos e braços que lhes queriam abraçar o lado esquerdo, mas aqueles olhos direitos a atazanar-me os nervos. Sujei as botas, mas valeu bem a pena. Foi a memória honrada dos pequenos.”
– “Bem, no primeiro mês bate menos.” – desabafou Raul. – “Quando foi a minha primeira, já estava perto do meio ano. Custou um bocado, porque os olhos já te pedem para parar, não é só a garganta.”
– “Se visses a quina da boca dos meus. Acho que mesmo que chegassem à terceira volta e a primeira palavra que lhes saía daquela boca disforme fosse “pára padre”, eu continuava a aviar petardos.”
– “E a tua senhora, mãe das pestes?”
– “Morreu também. Mas essa foi sem querer. Com peste e caída ao barulho, sai de roda da fortuna e sincronicidade d’aldeia.”
– “Dizes tu.” – riu Raul. – “Acabaste com a Forca. Forçado viuvado, Pado.”
– “Já te disse que não. De acreditarem ia metro e meio de chão. E taco fora, sorte a minha. Que mal estava ela e eu ia ficando com tão pouca paz de espírito que o meu maior tormento era bela assim. Tão mal. Tão mal dado. E a mal dado se arregala o dente.”
– “Às ares. Tão mal, Pado.”
Santo Estevão bate com um copo no balcão.
– “O mesmo de antes?” – pergunta-me.
– “Claro.”
Despeja o tinto da casa até chegar a cima. Mato-o com um beijinho. Dois ou três copos depois, estávamos como antes. De bigodes postos e cacetete na mão, à paulada ao Raul. Sempre o mesmo aquele moço. Não muda. Se a imortalidade fosse uma coisa minha, já tinha dado em maluco. Não é, bem sei. E sabem vocês também, que vos contei, conto e contarei. Não lhe digo isto a ele, pois foi o final do pai. Tiveram de o cortar aos pedaços e ir deixando pelas caixas de correio das povoações vizinhas com um papelinho a dizer que era uma promoção de comida de cão.
Mas o não mudar de cabeça também. Deus do céu. Há lá maior tortura que ser o mesmo de ontem?
Quando a negrura abraçou o último fio de dia do Café do Estevão, era chegada a hora de finalmente rever meus progenitores.
O meu pai Cinco e a minha mãe Cul tinham preparado o jantar. Não esperava novas sortes, mas o fatídico azar. Iguarias fora, peçonha no paladar.
Umas belas postas de pecado e batatas a murro, como é óbvio. De sobremesa, bolas de Natal com amêndoa caramelizada e cinzeiros de ’73, cheinhos até cima.
Não falamos muito na primeira noite, reminiscências das passadas, nem tão pouco nas que se lhes seguiriam mas não seguiram, obviamente. Aliás, não abrimos a boca. A não ser para engolir destinos. Tudo até ao fim. Ao contrário do que meus tristes progenitores diziam e dizem ainda, sempre fui bem comportado, e mesmo sem apetite, comi com agrado. Engoli a minha peste como qualquer Pado. Melhor que ser chutado. E como esperado, mal me viram o costado voltado, era ouvi-los zombar de mim até meu derradeiro fim.
– “Pronto, está feito. Lá foi ele. E lá se vai ele. Tu viste bem Cinco? Aquela gola alta? Que ridículo. E branca.”
– “Camisolas brancas é tão anti-Forca.”
– “É. E a tentar compensar com calças e botas pretas. Como se não soubéssemos a verdade da moral do parvinho. Seca como um canudo de Virtudes. Já não é daqui.”
– “Nunca foi, Cul. A verdade é que nunca foi.”
– “Mas ele lá é de algum lugar? Sai-me daqui vai para a Grônguia, fazer retiros e limpezas. Limpar o quê? Limpar-se da morte da avó?”
– “Bisavó.”
– “É igual. O puto não bate bem da cabeça.”
– “Não é um miúdo, já tem catorze anos.”
– “E chega-me a casa bêbedo, Cinco? Tem idade para isso?! Tem doze anos é um adulto?”
– “Amanhã falo com a professora, Cul.”
– “Essa é outra. “E ele tem talento e ele é especial”… Caralho da mulher. Ela não sabe o que é ter de ouvir aquele lamuriar afinado com aquela vozinha irritante, todos os dias.”
– “Eu disse-te para o matarmos quando ele ainda tinha três anos.”
– “A idade legal eram quatro anos, Cinco. Ele tinha começado a falar há pouco tempo. Podia ser que ali houvesse algum outro talento que não cuspir comida. Olha-me bem para isto?”
– “É normal Cul. Tem dois anos.”
– “Eu já vi outras crianças de dois anos, Cinco, que não andam pela casa a cuspir comida.”
– “Mas queres mesmo, Cul?”
– “Quero Cinco. Vai ser tão lindo. Vamos ser pais. Vai ser tão lindo.”
– “E se não for. Bem… podemos sempre matá-lo. Não é que seja crime.”
