Havia um menino que era o menino de sempre mas diferente do menino, e uma menina que era sempre a mesma mas nunca igual.
Então…
Primeiro uma menina escreve a história de um menino, que caminha na relva molhada, ao entardecer, e tenta esconder-se da sombra dele, que lhe trepa pelas costas e lhe sussurra no ouvido nomes que ele não conhece, e que ele sacode, abanando os ombros, antes ainda de perceber que era a própria sombra que o chamava. A menina observa de longe, a sua sombra estendida na erva, e vai atrás do menino.
Há depois o menino que lê esta história no chão da sala, com uma das pernas dentro de uma bacia de água quente e a outra coberta com uma manta. Gosta da história.
Nessa noite não consegue dormir, e senta-se ao pé da janela a reler outra história da mesma menina. Fica quieto, com a testa encostada ao vidro. Lá fora o mundo é tão calado que se ouve o barulho dos candeeiros a piscarem. Para sua surpresa, apesar de ele saber que ela mora na casa ao lado, a menina aparece na rua, descalça, com a sombra a dançar-lhe aos pés. A sombra abana-se, enrosca-se-lhe nas pernas, e a menina tenta pisá-la, devagar. Ela mexe-se e a sombra desaparece; ela pára e a sombra reaparece, exactamente no mesmo sítio. Às três e meia da madrugada, embora continue acordado, o menino pousa a história e vai dormir com as mãos entre as pernas, para não se esquecer do calor.
De manhã, uma menina senta-se num banco do jardim, no mesmo banco, junto à árvore grande, e segura nos braços o menino adormecido, acariciando-lhe o cabelo com os dedos gelados e soprando-lhe para os olhos para o acordar, e o menino está deitado no colo dela, com a cabeça virada para o céu, e as mãos penduradas. Os dois, depois de terem deixado bocados de sombra espalhados no chão – recortes de papel escuro em forma de peixe e de mãos – estão agora à espera que a sombra verdadeira volte a aparecer, iludida pela forma das outras.
Ficam assim, sem falar, e quase imóveis, enquanto só os dedos dela se mexem, desenhando pequenas figuras no ar, e o menino por vezes abana a cabeça levado por uma música distante. Os olhos da menina percorrem atentamente todos os recantos do jardim. Um comboio passa ao longe, uma televisão acende-se numa casa vizinha, ouve-se um gato a miar. Mas a sombra sabe que eles estão ali e não se mostra. O menino tem fome e não consegue ficar quieto. Levanta-se, pisa um dos recortes de sombra, e finge que tropeça, para ela se rir.
Muitas vezes, quando consegue entrar na casa ou a deixam entrar, a menina encosta-se à parede da sala e espera, com os olhos na porta onde o menino costuma aparecer. Mas sonolenta, não vai mais longe na espera, bastando-lhe aquela expectativa, ficar ali, ao canto, entre o relógio parado e a almofada que ainda cheira a sabão. A verdade é que ela gosta de estar assim, perto do lugar onde a sombra costuma estar. A sombra dorme dentro do armário, atrás dos casacos, enquanto ela espera do lado de fora. A sombra teve cópias de si mesma, pequenos fragmentos, dentro do armário. E a menina traz também uma sombra dentro do corpo, e sente-a crescer, às vezes nas costas, outras nos pés, quase a rebentar-lhe a pele de dentro para fora.
O menino observa muitas vezes a menina e escreve também ele uma história.
Havia duas crianças que viviam num lugar muito plano, entre muros baixos e árvores sem folhas.
As divisões da casa onde moravam eram tão grandes que se ouviam os seus próprios passos, passos de adultos. Não havia quadros nas paredes e as janelas deixavam entrar uma luz muito branca, de hospital. Durante o Inverno, as sombras acumulavam-se nos cantos dos quartos, poeira espessa. E o menino, às vezes, tentava apanhá-las com frascos vazios, como quem apanha insectos.
Havia um campo, além da estrada, e uma colina cheia de fendas onde se escondiam as sombras quando o céu ficava cinzento. E havia uma lagoa que nunca secava, onde, de noite, as sombras se banhavam, criaturas de água. O menino dizia que uma vez viu a própria sombra a afogar-se, mas depois reapareceu-lhe nos pés, sem explicação.
A menina dizia que as sombras não morrem, apenas esquecem quem são.
Com o frio, as sombras começaram a entrar em casa. Subiam pelas paredes, rastejavam pelas cobertas da cama, e deixavam pequenos vestígios no chão – pedaços de silêncio, nódoas escuras. As crianças não tinham medo, só estranhavam o cheiro que deixavam.
A menina arranjou uma rede feita de fios de cabelo e lã azul, e disse que ia apanhar uma sombra verdadeira. O menino ajudou. Passaram noites à espera. Ouvia-se o vento a bater nas janelas, e um barulho surdo nas paredes, como se alguém as riscasse por dentro.
Uma noite, a menina disse que tinha apanhado uma. Era pequenina, e chorava.
Meteram-na dentro de uma caixa de sapatos, com um buraquinho para respirar.
Mas de manhã, a sombra já não estava lá.
Os anos passaram e as sombras foram-se tornando mais pequenas.
O menino e a menina cresceram.
Foram viver para uma cidade com sombras afiadas, que andavam à frente das pessoas.
Tiveram filhos, depois netos.
Esqueceram a caixa de sapatos, o armário, a colina, a casa branca.
Agora sentam-se ao sol, na varanda, a olhar para a sombra um do outro.
A dele tem os ombros tortos. A dela parece um caracol.
