Pele. Substantivo feminino. Segundo o dicionário, tecido orgânico, flexível, que reveste o corpo humano e o dos animais, constituído pela epiderme e pela derme; cútis. Camada de revestimento. Invólucro. Escudo. Membrana. Casca. Película. Não li que a pele tem temperatura. Ou que a pele responde. Ou que a pele guarda silêncio. A minha, por exemplo, está aqui – envolta em mim, um continente pequeno e móvel – e no entanto não a vejo. Vejo fragmentos: o dorso da mão, o nó do pulso, um triângulo de antebraço. Entre esses pontos, sei que há continuidade. E sei que essa continuidade também me separa. A pele é fronteira e território ao mesmo tempo. Epiderme. Uma camada tão fina que se renova em segredo. Células que morrem e caem, invisíveis, e no entanto são a primeira coisa que qualquer outro vê. A pele como fachada de um edifício em constante restauração. Às vezes pergunto-me se, ao cumprimentar alguém, estamos a apertar as mãos ou apenas a trocar camadas mortas. A cor da pele é outra história. Uma história que se inventou sozinha. Ou que inventámos para ela. A tonalidade ganhou peso, gravidade própria. No fundo, pele é pele. Não há pele preta nem pele branca: há só pele, e a luz que cai sobre ela. Todas as peles são variações da mesma matéria, o mesmo idioma falado com sotaques de sol e sombra. Peles que brilham, peles que absorvem, peles que reflectem o que as rodeia. Se me disserem: esta pele é diferente daquela, penso na espessura microscópica que separa o que está fora do que está dentro. Penso no absurdo de medir dignidade com um pantone. Penso que, sob qualquer pele, há sangue com a mesma cor. Agrada-me o perfume da pele. A mistura de sal, calor e qualquer coisa que não tem nome. O cheiro que é assinatura química de um corpo. Passo a mão no próprio braço e reconheço-me pelo olfato. Às vezes, sem querer, reconheço os outros. Uma proximidade fugaz, o gesto de encostar o ouvido a uma porta e ouvir um som de dentro. O toque da pele. Porque há toques que são leitura em braille, sem pontos nem letras, apenas a linha contínua de um gesto que atravessa a superfície. A pele percebe pressões, direções, hesitações. No toque, a pele deixa de ser fronteira e passa a ser língua. O instante em que a pele se torna território partilhado. Pele contra pele. Fronteiras abolidas. O calor acumulado entre dois corpos, o ar incapaz de os separar. O deslizar da epiderme sobre outra epiderme – fricção de conversa antiga. A pele vibra, responde, contrai, expande. O corpo torna-se paisagem de nervos eléctricos. E do toque pode nascer amor. Amor que começa na superfície e se infiltra, que escava até onde a pele já não chega. Amor que ainda sente a pele mas não depende dela. Amor que atravessa, que não se detém na cor, no relevo, nas cicatrizes. E se me pergunto o que é amar sem pele, imagino um abraço entre dois corpos de luz que se fundem num só. Não há temperatura, não há textura, só a percepção de presença. Como se a pele tivesse sido uma metáfora e não soubéssemos. Como se o amor fosse possível sem nenhuma das coisas que julgávamos essenciais. A alma não tem pele. Não precisa. Não envelhece, não se renova, não se descama. Não muda de cor. Não é vulnerável ao toque, mas é feita dele. É possível que a alma seja o que sobra quando se retira a pele. O amor, então, seria o encontro entre almas que reconhecem que não têm fronteiras. E penso que, se algum dia o amor da humanidade por si própria existisse, não haveria mais necessidade de falar em peles. Seríamos todos pele e todos alma ao mesmo tempo. E nessa fusão talvez conseguíssemos finalmente tocar a eternidade.
