Num lugar em que as estações se confundem e os mapas mentem existe uma vila ferroviária do interior, onde os comboios passam sem razão aparente e deixam no ar um pó morno, feito de ferrugem, ervas secas e anúncios desactualizados.
Eu estava ali por engano, ou por herança, ou por uma dessas decisões pequenas que depois ocupam uma vida inteira.
Naquele dia tinha ido devolver um livro que não era meu à pequena biblioteca da estação que fechava para almoço e nunca reabria à hora anunciada.
Foi nesse intervalo que encontrei o arquivo.
Não estava sinalizado. Uma porta baixa, pintada muitas vezes, abria para uma sala sem janelas, iluminada por lâmpadas cansadas. Dentro, filas de gavetas metálicas, numeradas à mão. Não havia bibliotecário, nem aviso, nem proibição.
Puxei uma gaveta ao acaso. Dentro, cartões grossos, preenchidos com caligrafias diferentes, algumas cuidadas, outras nervosas, outras quase ilegíveis. Nomes, datas, observações mínimas: “medo de elevadores”, “cantava baixinho enquanto cozinhava”, “não suportava domingos”, “morreu convencido de que ainda havia tempo”.
Quando toquei num cartão específico, senti-o antes de o entender. Um ajuste interno, um pequeno desvio. O cartão dizia pouco: uma profissão banal, duas relações interrompidas, uma nota sobre uma alegria injustificada ao ver insectos a atravessar o chão. Voltei a colocá-lo na gaveta e fechei-a. Nesse instante, algo em mim encaixou-se gentilmente.
Ao sair, o sol parecia outro. Deslocado. Caminhei até à praça, sentei-me num banco de cimento, observei as pessoas sem esforço. Um homem passou a assobiar uma melodia que eu conhecia demasiado bem. Uma mulher segurava um saco de laranjas e pensava na mãe com uma ternura seca. Uma criança contava os passos entre as sombras. Tudo isso entrou em mim sem violência, instalou-se com método.
Voltei ao arquivo nos dias seguintes, à mesma hora. Sempre sem testemunhas. Sempre escolhendo cartões ao acaso, respeitando uma regra que não estava escrita. Não levava nada comigo. Bastava tocar, ler, devolver. O efeito era quase imediato. Primeiro surgiam pequenas competências inúteis: saber exactamente quando certo coração ia partir-se, reconhecer o peso correcto de uma palavra antes de ser dita, antecipar um gesto trivial. Depois vieram os afectos alheios: uma culpa antiga, uma esperança tola, um cansaço específico às quartas-feiras.
O corpo adaptou-se em silêncio. No entanto, o sono tornou-se irregular. Havia noites povoadas por estações que nunca visitei e manhãs em que acordava com a certeza de ter vivido mais tempo do que o calendário permitia. No espelho, nada denunciava a acumulação. A mudança era interna e funcional.
Um dia toquei num cartão errado. Não estava na gaveta esperada, nem devia estar ali de todo. O texto curto, quase ofensivo à sua economia, desapareceu. Ao fechar a gaveta, senti o primeiro corte. Não um acréscimo, mas uma falha. Algo saiu de mim com a mesma naturalidade com que outras coisas tinham entrado.
Foi assim que compreendi a lógica do arquivo. Redistribuir presença. Cada contacto exigia espaço. Cada fragmento incorporado empurrava outro para fora. Era pura circulação.
Na semana seguinte, em frente à estação, uma jovem caiu. Ajudei-a a levantar-se. Enquanto a segurava pelo braço, reconheci nela uma das ausências recentes. O olhar dela demorou-se em mim um segundo a mais, sem reconhecimento, apenas com uma espécie de conforto involuntário.
Afastei-me. O coração batia num ritmo que não era só meu. Percebi que o arquivo continuaria ali, indiferente, disponível. Também percebi que não era preciso voltar.
À noite, no quarto, ouvi um comboio distante. Pensei em todas as vidas que passam sem parar, nos nomes guardados, naquilo que se perde sempre que algo se ganha. Não formulei desejo algum. Limitei-me a aceitar a contabilidade invisível. Inevitável.
Haveria sempre um custo. Não vinha escrito em lado nenhum, mas sentia-se no peito. E, pela primeira vez desde que tinha entrado naquela sala sem janelas, chorei sem saber exactamente de quem eram as lágrimas.
