Serena (ii)

Noutro tempo —
quando se respirava fundo sem ferir nada
e a luz cabia inteira na concha das mãos —
corria-se.
Sem saber porquê,
como se o mundo fosse um campo aberto,
e os pés, sementes lançadas no vento.

Havia um vermelho que nascia baixo, rente à terra,
mas era vivo.
Não se colhia,
olhava-se.
Sabia a promessa e a febre.

Nas noites, as janelas ficavam acesas mais tempo.
Alguém cantava sem pressa.
O ar tinha um rumor de ferrugem,
cheiro a fumo,
e a música tropeçava nos degraus
como um santo bêbedo de alegria.

Nada disso volta.
Só a lembrança:
um sabor antigo no fundo da boca,
a suspeita de que tudo o que importa
aconteceu antes de sabermos dar-lhe nome.

E ainda assim,
há dias em que o corpo hesita,
vira-se para trás,
como se ouvisse de novo
o eco de passos miúdos entre espigas altas.