O trote dos cavalos ressoa na vereda que serpenteia até à propriedade de meu irmão, onde as águas do lago, espelhos baços do céu invernal, repousam imóveis sob a névoa persistente. Ansiosa, espero-vos. A carruagem avança lenta, rompendo a quietude lânguida das primeiras horas da tarde. Na fidelidade a costumes que já não me pertencem, trouxeste as nossas filhas para um reencontro natalício. O frio ainda pesa no ar, último vestígio da morrinha que caiu ao romper da aurora. Esta é a primeira visita desde que o véu da enfermidade se ergueu sobre mim.
As gémeas cresceram para lá das vozes que lhes imaginava quando lia as cartas que me escreveram – mais maduras, mais distantes da infância que ainda guardava delas. Esforçam-se por arrastar pelo relvado uma única mala. Trazem vestidos idênticos, de lã azul pálido, adornados com rendas brancas na gola e nos punhos. As mangas bufantes afunilam-se nos pulsos delicados, e as saias, rodadas e longas até aos tornozelos, balançam a cada passo, descobrindo por instantes as botas de couro negro. Ao avistarem-me, quedam-se, quais anjos ao vislumbrar um espectro. Os olhos arregalados, os corpos tensos, à beira da fuga. A minha cunhada assoma à soleira, e, de imediato, largam a bagagem e correm ambas para o abrigo do seu abraço, tímidas demais para me saudarem.
A tua carruagem parte, levando-te com ela. Há uma falência em mim. Lanço-me adiante, folha que persegue o vento antes de tombar no abismo. A relva encharcada cede sob os meus pés nus, a lama suga-me os passos como se o chão me engolisse. As rodas deixam sulcos profundos no solo ferido, e o vento agita-me a veste cinza. A estrada à minha frente alonga-se num corredor sem fim, uma longa cela almofadada por nevoeiro e lembranças. O fragor dos cascos não se apaga – cerra-se em meu redor. Um portão de ferro, aprisionando-me num espaço onde apenas a ausência habita.
Alcanço-te. Estendo-te um gesto de súplica ou talvez de esperança, e por um fugaz momento – tão breve quanto o cintilar de uma estrela antes de se extinguir – parece que as nossas mãos se encontram. Mas o ouro que outrora selava os nossos votos jaz ausente do teu dedo, e um perfume estranho, doce e insinuante, exala subtilmente da concavidade do teu pescoço, denunciando uma presença que não é a minha.
O mundo treme como se a própria existência recusasse firmar-se à verdade. Fico ali, estática, a ver-te partir, o eco dos cascos diluindo-se nas colinas, ao mesmo tempo que a tua silhueta se dissipa no horizonte, como neblina ao toque do sol.
Fecho os olhos e imagino-te ao dobrar da curva – hesitante, a mão talvez trémula sobre a porta, um suspiro a meio caminho entre o arrependimento e a partida. O cocheiro, mudo juiz do teu destino, aguarda, enquanto a madeira da carruagem range sob o peso da indecisão.
Mas não. Sei que não regressas. O que fomos jaz em ruínas, palácio abandonado à tirania do tempo. Há muito nos traçaste o fado, e eu, perdida em devaneios de um coração errante, apenas assisto à consumação da partida.
Ainda assim, alguém há de levar a mala das meninas para dentro – e sou eu quem resta…
Eu, que fico.
Mas…a mala? Já alguém a terá levado? E, no entanto, o lugar onde ainda agora a vi parece intocado, como se, para si, a própria terra a tivesse reclamado.
Ao longe dobram os sinos. O luar estende-se sobre a serra, e uma brisa fria ergue-se do vale. Ao volver-me, um vulto avança, passos firmes, cadência serena. Um manto branco desenha-se na penumbra. No olhar traz a paciência de quem, por incontáveis noites, me encontrou perdida no jardim deste sanatório, e com voz doce me chamou de volta ao repouso por mim negado.
