…às armas por Ele amadas …aos homens por Ele armados

Deixo tudo aqui, sim, tudo aqui deixo, os vales onde em menino corri, as colinas de onde avistei o mundo que parecia tão grande e agora se me afigura duma pequenez atroz, deixo as noites na cozinha ao calor do lume dançando sombras nas paredes caiadas, deixo o rosto da mulher que me segurou na vida e me dará forças na morte, os nossos corpos enroscados sob mantas de conforto nas madrugadas frias, deixo o peso das mãos dela nas minhas, os dedos a apertarem-me num aviso silencioso a pedir-me para não ir, deixo o sorriso da minha filha no berço onde o meu nome morrerá primeiro, deixo à porta o cão ingenuamente crente de que toda a espera acaba num regresso, deixo a gravidade que me prende os pés ao chão, a esperança que me tem mantido de pé, deixo aqui os amados e os próximos, tudo o que me tocou, tudo o que me chocou, que me fascinou e me elevou, deixo o nobre, o benevolente, o agradável e o demoniacamente belo, deixo a papoila semente nascente, as distâncias, a inexorabilidade e a embriaguez do falso para sempre que nunca chegarei a conhecer,deixo os livros alinhados na estante, os nomes escritos na madeira da velha escrivaninha, deixo as macieiras, as pereiras e as cerejeiras, deixo os serões de inverno, os verões lentos, deixo a terra que me viu ser, deixo os campos de trigo e o cheiro a pão na madrugada, deixo o banco da praça onde aos domingos lia o jornal, deixo as árvores cujas folhas vi nascer e morrer em ciclos que achava eternos, deixo o relógio do meu pai e as histórias contadas à lareira, deixo as videiras que plantei e cujo vinho não provarei, deixo as canções que cantávamos nas vindimas e os abraços dos amigos nas festas da aldeia, deixo o café amargo das manhãs e o doce licor das noites, deixo o sol que me aquecia o rosto e a chuva que me lavava a alma, deixo as feridas antigas e as cicatrizes novas, deixo os caminhos que conhecia como a palma da mão e parto para trilhos incertos de alma na mão, deixo a certeza pelo desconhecido, o conforto pela dor… e talvez seja isto a coragem, a força para gritar: não!, para morrer de pé em vez de viver de joelhos.

 E assim parto, deixando tudo tudo, levando todo um nada, porque lá não há espaço para lembranças, porque as armas não perguntam quem fomos, porque o futuro é um luxo que já não me pertence, porque quando temos de ir, não se olha para trás, não se hesita, não se duvida, vai-se, e eu vou.

Vou porque já me vi caído antes de dar o primeiro passo, porque já senti o frio da terra na cara, já ouvi o silvo da bala antes de a bala partir, já reconheci a sombra que me espera do outro lado do fumo, e sei que ela tem a minha forma. Vou porque esse chão há de engolir-me como já engoliu outros, porque este céu carregado há de fechar-se sobre mim como se fecha sobre todos, porque no fim sou apenas mais um corpo a tombar num campo onde já ninguém conta os mortos. Vou. Vou, porque já fui antes de partir.