Uma boa mulher para casar levanta-se cedo, mesmo ao domingo. Põe o avental antes de abrir os olhos e mexe o café com a colher pequena, como se cada gesto fosse parte de um ritual antigo, aprendido com a mãe e já repetido pela avó. Cruza os talheres à direita do prato. Esfrega o soalho de joelhos. Não se queixa.
Uma boa mulher para casar cose meias rotas sem que se note o ponto. Faz sopa sem precisar de receita, arranja a bainha das calças com a pressa de quem tem mais vinte coisas para fazer antes do meio-dia. Vai à missa. Diz-se que reza por nós.
Guarda os sapatos do marido alinhados por cor, engoma as camisas com o vapor de quem esconde no ferro tudo o que nunca disse. Nunca fala alto. Nunca discute. Sabe estar calada nos jantares. Ri-se com pudor. Pede licença para existir.
Uma boa mulher para casar fecha os olhos ao desejo. Tem os filhos com a pontualidade de um relógio suíço, cozinha papas e beijinhos, pendura sorrisos nas paredes do corredor. Dorme cedo. Sonha com pouco. Sonha com o justo. Sonha com nada.
Mas às vezes, quando o silêncio da casa é tão espesso que se entranha nos ossos, ela levanta-se devagar, descalça, e fica ali, junto à janela, como se escutasse uma música que mais ninguém ouve. Não fuma. Não bebe. Não chora. Mas dos olhos dela nasceu um país inteiro que nunca foi desenhado em mapa algum.
Vê-se a morrer. Sente-se na altura de morrer. Sente-se morta. Matá-la-ei.
E então, sem dizer palavra, começo a fazer perguntas com os gestos. Troco os móveis de sítio e limpo-lhes o pó. Dou-lhe histórias que nunca leu. Pego num prato por lavar. Respondo com “sim meu amor” a um medo qualquer. Um sorriso dito baixo, quase doce. Mas que abre fendas.
No início, parece só que se mata cansaço. Mais tarde, torna-se mal estar em vontade de não ser sombra. De não continuar a servir o mundo como uma criada que nasceu para não ter nome.
Uma boa mulher para casar não me limpava as falhas. Deixava-me ser menos. Era mulher que me obrigava a mingar. A emburrecer. A não ter vergonha de ser medíocre.
Virou espelho. E nos olhos dela, se prestasse atenção, via-me pequeno. Via-me menino. Via-me a repetir o mundo.
Uma boa mulher é a que cala? Não senhores. Boa mulher é a que fala. A que discorda. A que não cede. A que sabe mais do que nós e finge que não, por paciência. A que não nos deixa ficar onde estamos.
E se é para casar, para realmente construir uma casa, que seja a duas vozes, com telhado para dúvidas e chão para quedas. Casar vem nos livros. Amar vem nos dias. E ser boa gente… isso já vem de dentro. O resto é pó que se sacode.
