O Fundo a Meus Pés

Às seis da manhã, O ESCRITOR acorda com a pontualidade exata de uma avaria interior. O telemóvel, esquecido no modo silêncio e inchado de notificações inúteis, brilha com a luz mortiça do novo dia. Ao lado dele, a esposa dorme. O rosto meio enterrado na almofada, o cabelo castanho espalhado numa desordem que sugere sonhos profundos. 

Ele levanta-se devagar, cada movimento calculado para não perturbar a geografia delicada do colchão. Os lençois sussurram o mínimo necessário. Antes de se afastar completamente, rende-se ao impulso: inclina-se sobre aquela cascata de cabelo liso e inspira. Cheira a champô de jasmim e algo mais íntimo, mais doce – o perfume da pele durante as horas de inconsciência, a memória de quatro anos de manhãs partilhadas.

A cozinha permanece a meia penumbra – uma claridade cinzenta, indecisa, encostada às janelas. Na bancada, a caneca de ontem: branca, com a estrela negra do álbum Blackstar de Bowie impressa na cerâmica. No fundo, o resto de café seco, já endurecido, já parte do esmalte. Ele passa-a por água fria, sem sabão. Não por método, mas por economia de gesto. A máquina engasga-se antes de cuspir o café quente. São seis e seis da manhã.

Dois goles junto à janela da sala. O líquido desce lento e inscreve-se-lhe no peito. Não empurra, não exige – apenas fica, como um calor que reconhece o corpo por dentro. Lá fora, a rua respira ainda o ar pesado da madrugada. Cá dentro a cadela ocupa três quartos do sofá, as patas pendentes numa rendição total ao conforto. No canto oposto, encostado ao gira-discos, o cão dorme de barriga para baixo, esparramado qual frango de churrasco aberto, o focinho escondido no cruzamento das patas da frente.

A dor insinua-se atrás do olho direito – não ainda uma enxaqueca, mas a sua promessa. O ESCRITOR conhece os sinais: a rigidez na nuca, a sensação de que o crânio se tornou demasiado pequeno para conter o ruído que fervilha lá dentro.

Caminha pelo corredor, os pés descalços a absorver o frio. O escritório aguarda-o na mesma disposição de sempre: à direita, a secretária. Ao fundo, a janela. Do lado de lá a rua ainda sem ninguém. Junto à janela, a outra secretária, com os objetos da esposa despejados com uma precisão atabalhoada. À esquerda, o móvel discreto, onde repousam livros acumulados ao longo dos anos: os dela, os dele, agora cúmplices do mesmo espaço. E, encostada ao móvel, a mesa pequena com as fotografias: montanhas, ruínas antigas, sorrisos, cabelos apanhados ao vento. Algumas viagens com ele, as outras guardam-na em paisagens que ele nunca viu – cidades que só conheceu através de livros. Mas não sente ciúme, nem inveja – só a sensação vaga de ter chegado atrasado à própria vida. Enquanto ela andava de comboio ou avião por países onde o mundo se desdobra noutras gramáticas, ele ficava entre cafés repetidos, cidades pequenas, varandas viradas para nada. Nunca soube muito bem como sair de si. Ela ajuda-o com isso. Viveu tanto. Ainda bem que o puxa, devagar, para fora do mesmo sítio.

Senta-se, abre a gaveta de cima e extrai dois comprimidos ovais cor de osso. Coloca-os na língua e engole-os com café. Depois, põe os óculos – tudo a ganhar contorno, sem alarde. A caneca encontra o seu lugar habitual ao lado do teclado, numa marca circular já gravada na madeira.

O portátil desperta ao toque dos dedos. O ecrã ilumina-se revelando o documento que ficara por terminar na véspera: “O FUNDO A MEUS PÉS”. O título paira ali, suspenso entre a intenção e a execução, entre o sonho e a realidade tangível das palavras organizadas em frases, das frases organizadas em parágrafos, dos parágrafos organizados numa narrativa que, espera, com alguma sorte, se chegue a parecer um bocadinho que seja com literatura – e, quem sabe se desta vez consegue dizer qualquer coisa de verdade sobre ele ao mundo.

É a última revisão antes de premir “publicar” no blog que mantém há um ano, o espaço digital onde atira os seus textos para um público que não vê, que não conhece, que talvez nem exista. Que provavelmente nem exista. Não existe.

Os dedos pairam sobre o teclado. Da sala irrompe um latido seco. A cadela atravessa a divisão num disparo e desaparece no terraço ladrando freneticamente. Se calhar foi só o vento ou o eco do que nela ficou por fechar, antes de ser resgatada. O ESCRITOR inspira. O café ainda quente. Nada se mexe. E o que vier agora já não será rascunho.

No ecrã:

******


“O FUNDO A MEUS PÉS”
– FILME

INT. QUARTO – MANHÃ

Luz pálida entra pelas frinchas dos estores.

Silêncio quente.

Na cama, uma FIGURA FEMININA dorme. Não lhe vemos o rosto.

Cabelo liso espalhado sobre a almofada. Corpo envolto nas mantas até ao pescoço. Respiração calma.

O ARGUMENTISTA – quarentas, descalço, t-shirt amarrotada, calças de fato de treino, barba por fazer – abre a porta do quarto com cuidado. Fecha-a com um clique suave.

INT. CORREDOR / CASA – CONTÍNUO

Passos lentos sobre chão de madeira.

O ARGUMENTISTA avança pelo corredor, meio a bocejar.

INT. COZINHA – SEGUIDO

Uma cozinha com sinais de vida.

Chávena usada repousa numa poça de café seco em cima da bancada. Máquina de café. Vapor residual.

Ele enche a mesma chávena com café depois de a passar brevemente por água. Leva-a consigo.

INT. ESCRITÓRIO – MANHÃ

Portátil fechado em cima da secretária.

O ARGUMENTISTA pousa a chávena. Abre o portátil.

Ecrã acende.

CLOSE-UP – ECRÃ DO PORTÁTIL

“O FUNDO A MEUS PÉS”
(título centrado, em maiúsculas)

CURSOR A PISCAR_

Ele coloca os óculos e olha para o ecrã.

O ARGUMENTISTA começa a ler. Devagar. De olhos presos ao texto.

Silêncio. Apenas o som distante da cidade a acordar.

ZOOM IN no cursor.

O cursor PISCA.
Pisca.
Pisca.

Começamos a ler o texto que está no ecrã ao mesmo tempo que O ARGUMENTISTA.

******

“O FUNDO A MEUS PÉS” – PEÇA

NOTA DO AUTOR :

A presente obra deverá ser representada apenas e exclusivamente em salas que respeitem um conjunto de condições que não são caprichos mas exigências ontológicas – o mínimo necessário para que a peça exista e, existindo, fracasse com a dignidade que se espera de qualquer tentativa de arte séria.

A sala onde se realiza a representação deverá ter forma rectangular. O rectângulo, ao contrário de outras formas supostamente mais suaves ou decorativas, contém em si a tensão do equilíbrio imperfeito – quatro ângulos rectos a fingirem que não colidem. É a forma que sustenta quase tudo, mas que nunca conforta. É o espaço da contenção, da arquitectura da dúvida. É, como o palco, uma figura de compromisso: tem início, fim, largura, altura, mas nada resolve. As medidas mínimas do espaço são nove metros de largura por dezassete de comprimento, com um tecto que deverá situar-se entre os três metros e meio e os quatro metros e dez – nem mais, nem menos – a fim de produzir a exata sensação de claustrofobia moderada, sem recurso a truques cenográficos.

O chão da plateia deverá descer, numa inclinação contínua de três vírgula oito graus em direcção ao palco. Esta inclinação não é simbólica, é real, física, e foi calculada com base no ângulo de inclinação da esperança quando esta começa a ceder. O palco, por sua vez, deverá ser feito de madeira de carvalho velho, madeira que tenha vivido, que tenha assistido a outros fracassos, que guarde nos veios a memória de aplausos interrompidos e actores que esqueceram as falas. A madeira tem de ranger. Cada passo do actor deve produzir som. Caso contrário, perde-se o lastro sonoro do desgaste, perde-se o eco da persistência patética.

No palco, não deverá haver mais do que uma única cadeira. A cadeira será de bordo, encosto ligeiramente desconjuntado, assento cansado. Estará posicionada com precisão de régua: sessenta e sete centímetros à esquerda do centro exacto do palco, – um pensamento desalinhado.

A iluminação será mínima. Um único foco branco, ligeiramente sujo, com temperatura de cor a rondar os três mil kelvin. A luz deve parecer cansada, sem certezas sobre continuar acesa. Pode tremer, se for tremor sincero. Nunca intermitente, nunca decorativo.

Os assentos da plateia serão duros. Madeira crua ou metal frio. Preferencialmente com arestas. A comodidade é proibida. Nenhum banco central estará alinhado com o centro do palco, para evitar que o público tenha a ilusão de centralidade. O número de lugares será sempre ímpar. Nunca mais de quarenta e um espectadores. Nunca menos de três. Um deles, pelo menos, deverá estar presente contra vontade – por engano, convite mal compreendido ou pura desatenção. Isso é essencial.

O som será natural, cru. Não se usarão microfones. A voz do actor deverá projectar-se com esforço, deixando falhas, hesitações, quebras. O ranger do palco, a tosse da sala, o resvalar de casacos – tudo será incorporado no tecido acústico da peça. Nada será corrigido. Nada será evitado.

O ambiente deverá manter uma temperatura constante de dezoito graus centígrados. Frio suficiente para sugerir ausência, mas não morte. O cheiro da sala será o de madeira húmida, papel velho e café esquecido ao lado de um manuscrito recusado. Um odor específico, que deverá ser recriado por métodos naturais ou ilusão olfactiva.

Esta nota não é uma provocação. É um pedido de respeito. A peça pode falhar – e falhará – mas deve fazê-lo com método, com intenção, com a dignidade de um animal moribundo que escolhe o sítio exacto onde quer cair.

B. M. T.

(o autor, ausente mas sempre sempre vigilante)

***


Palco nu, uma cadeira no centro. Um homem – fato amarrotado, talvez tenha dormido com ele, ou só nunca tenha acordado sem ele – entra veloz e vazio, sem saber se está a chegar ou a fugir: O AUTOR. Traz debaixo do braço uma pasta antiga, demasiado gasta para ser elegante, demasiado organizada para ser lixo. Está cheia de papéis soltos, alguns dobrados ao meio, outros já a ceder nas dobras, com cantos roídos, riscos sobre riscos, manchas de café, de suor ou de tempo mal passado. A pasta, rígida, quase irónica, parece querer manter uma dignidade que o conteúdo já não acompanha. Há folhas que escorrem por entre as costuras, umas a espreitar, outras a fugir – o papel envergonhado da tinta que carrega.

(Olha o público.
Imagine-se nenhum garfo à vista mas todos com fome.
Pousa a pasta em cima da cadeira levando com ele apenas algumas folhas soltas.
Fala diretamente para o público do centro do palco.
A voz tenta firmeza mas tropeça nela mesma. As mãos movem-se demais, numa coreografia ansiosa que tenta justificar a boca. Brilha-lhe a face, não de glória, mas de esforço inútil. O corpo não escolheu bem o momento para existir.)

O AUTOR: 

Então… esperem esperem esperem – olhem, tenho aqui… tenho aqui uma ideia que vai… como é que se diz… revolucionar o conceito de cinema narrativo. Já sei já sei já sei, isso não quer dizer nada. Mas ouçam.

Um homem. Uma mulher. Uma porta fechada.

(pausa)

Não! Não é sobre amor. Nem sobre tensão sexual. Nem sequer sobre claustrofobia existencial face a uma qualquer antecipação. É sobre… escadas. Escadas metafísicas. Escadas para o Céu e para o Inferno. (cantarolando o refrão do tema de Led Zeppelin) “And she ‘s buying a Stairway to Heaven”.

(pausa, olha para cima e benze-se exageradamente rápido, dando de seguida uma enérgica sacudidela com o corpo todo)

Sim, ouçam-me! Uma porta, aparece onde não havia nada senão parede. Porta fechada, claro. Nunca abre. Ninguém sabe de onde veio, ou porquê, ou o que está do outro lado. Nós sabemos que são escadas. Para cima e para baixo, para algum lado, não interessa. Escadas. Pessoas passam pela porta fechada. E pelo casal. Eles parecendo hipnotizados pela porta… fechada … de mão dada. As pessoas… (ri-se nervoso) começam a fazer-lhes vénias. A eles e à porta. As pessoas a deixar oferendas. Uma senhora chega a dar à luz junto à porta. Gémeos. Mas ascendente em Escorpião. Nomeia um deles de Subida e outro de Descida sem saber bem porquê mas acha que é um sinal do Divino. No final descobrimos que Divino era o nome do vizinho de cima. 

(pára, respira, engole em seco)

Ridículo, não é? É disso que se trata. Palermice pura. Mas e se for esse o ponto? E se for a porta que nos está a testar? A porta da percepção. Não? Ou a nossa percepção da porta. Ou a falta dela. Melhor que a falta de porta. Senão não entramos na trama. Estou tramado com vocês…

(aproxima-se do público, sussurra)

E se Deus estivesse a viver no décimo segundo andar? … Não? (pausa mais longa) Henry Fonda? … Também não? Fonda-se.

(pausa, olha para o chão, abana bruscamente a cabeça, volta a fitar o público, e segue)

Agora, outra. Esta é boa. Juro. E se – escutem isto – e se fizéssemos um musical… sobre pessoas que não sabem que estão num musical?

(pausa dramática, olha à volta depois começa a gesticular energicamente movendo-se pelo palco todo enquanto fala)

Caminham. Trabalham. Empregados de escritório. Depiladoras. Tradutores juramentados. Mas ao mínimo estímulo – uma gota de café, uma borracha que cai, uma interjeição mal colocada – BAM! (soca a palma da mão com violência) Número musical. (trauteia e dança) La Lala Laaaaaaaaaa. (pára) Mas ninguém repara.

(ri-se sozinho, depois bate com as folhas na cabeça, quase aos gritos)

Ah, sou um génio estéril! Um Einstein do fracasso! Um Sófocles sem coros e sem tragédia! Um Picasso sem tela, só com o pincel enfiado… enfim.

(continua parado, olha para o vazio)

Não estão a rir. Ninguém ri.

(agacha-se, quase derrotado)

Tenho mais, sabiam? Uma distopia que sobrevive ao apocalipse. Sim. Tipo um político que sobrevive ao escândalo. Ninguém sabe como, mas continua lá. Com o seu fato chique e promessas recicladas. A fome? Artística. A sede? De sentido. O enredo? Não interessa. Interessa que os mortos votam. Interessa que os vivos fazem fila para morrer.

(volta a levantar-se bruscamente)

Ah, e esta! Uma peça – só com ruídos! Nenhuma fala. Só o som da cidade a ser engolida pelo silêncio. Mas não um silêncio bonito. Um silêncio com dentes. Um silêncio que trinca.

(Humedece os lábios com esforço. Abre a boca, tenta engolir, mas não há saliva – o gesto denuncia mais do que o rosto quer admitir. Faz uma careta breve, seca, de quem mastiga o ar. Levanta então a mão, estendida para a frente, palma aberta, um gesto pequeno, quase elegante, mas urgente como quem diz: esperem um momento, por favor. Sai do palco sem dizer nada. Breve silêncio. Regressa com um copo de bebida de uma qualquer cadeia de fast food na mão, ainda com a tampa. Bebe de um só trago, ofegante, sem pausa nem cerimónia. Arremessa o copo para fora de cena, casualmente. Fica com a palhinha. Roda-a entre os dedos.)

(voz solene, shakespeariana)

– Oh doce palhinha do fast food passado, tu que sugaste as lágrimas do refrigerante já sem gás, guia-me, ó haste perfurada, pelos labirintos do absurdo!

(bruscamente, volta ao tom frenético)

Já sei! Já sei já sei já sei – ouçam esta, ouçam esta. Um mundo onde… onde… todos os objetos têm alma. Alma mesmo. Alminha. Alma de verdade. Mas não há telepatia, não! 

(De olhos fechados, canta baixinho, de si para si por um minuto, o tema “Telepatia” de Lara Li. Move-se devagar, os ombros oscilam, o corpo inclina-se. Dá um passo. Depois outro. Dança com alguém que não está lá. A cabeça inclina-se levemente, a face expressa uma leve doçura. Volta a encarar o público com a mesma expressão de antes e continua no mesmo tom frenético.)

As almas não comunicam. Nem entre si nem com os donos.

(riso nervoso)

A torradeira ama a chaleira, mas não pode dizer. A caneta quer morrer, porque já não escreve azul. O bidé tem dúvidas teológicas.

(ergue a palhinha)

A palhinha… a palhinha é epicurista!

(faz vénia à palhinha, depois atira-a para trás com desdém)

Mas esperem. Esperem… vocês querem intensidade, querem densidade dramática, querem… querem catarse, não é?

(puxa de um dos seus papéis, rasga-o ao meio, lança-o ao ar)

E se… e se fizéssemos uma história de amor entre dois fantasmas… que não sabem que estão mortos… mas sabem que o outro está?

(pausa)

E vivem nisto. Ou um sabe que é um fantasma, mas acha que o outro está vivo. O outro acha que é vivo, mas sabe que o primeiro está morto. Só que os dois estão mortos. Ou vivos. Ou em coma. E o enredo… o enredo é narrado por um peixe com a voz do ______ (nota para o autor: pensar em quem será, hipótese: um cruzamento entre o timbre de Orson Wells e o ritmo de Jorge Perestrelo… peut-être) que não tem memória a curto prazo. 

(Cai de joelhos. Pausa. Nada. Levanta-se de súbito, puxado de dentro. O discurso torce-se com ele.)

Então… esperem, esperem, esperem! E esta? Esta é boa! Imaginem isto… Um filme sem protagonistas! Um elenco inteiro de figurantes que acham que são a estrela principal. Uma revolução democrática no casting! Todos a falarem ao mesmo tempo, ninguém a ouvir ninguém… basicamente um jantar de família em vésperas de divórcio! 

(Pausa. Esmurra o vazio à frente, em direcção a um adversário ausente.)

Não? Ok… Já sei, já sei, já sei! Um western… mas passado todo dentro de uma máquina de lavar. Cowboys rotativos! Espuma dramática! Pó de estrelas e detergente industrial! E no final… o cavalo é um programa informático que tem medo de cavalos! É Kafka meets Clint Eastwood meets a mãe do Kafka! (sussurra) E ninguém sonha sequer que a gaja está a ter um caso com o Gandhi. (pisca o olho)

(Dirige-se à cadeira. Pega rapidamente na pasta. Senta-se de perna cruzada. Permanece sentado um segundo ou dois. Levanta-se de imediato. Pousa a pasta com gesto curto. Volta ao lugar onde estava.)

Ok… Demasiado? Então ouçam esta: comédia romântica entre duas almofadas! Sim, senhoras e senhores, almofadas. Plumas versus espuma viscoelástica! Um amor impossível, tipo Capuletos contra… IKEA. Final trágico: ela vai para a lavandaria industrial e ele… ele fica com o cheiro de outro.

(Respira fundo. Aproxima-se da plateia prestes a confidenciar um segredo a uma escultura de mármore em dívida.)

E se… se fosse um thriller… no qual ninguém morre? Um serial killer com uma crise ética! Em vez de matar, telefona às vítimas a pedir desculpa… “Desculpe, ia matá-lo, mas tive terapia ontem, e… chorei com o terapeuta, sabe? Estou a tentar ser melhor monstro.” Oh! Chamar-se-ia… “O Silêncio dos Decadentes”.

(Voltas. Puxa de um papel amachucado – um coelho morto arrancado da cartola.)

Ouçam, ouçam: “Assim Falava a Gente Justa”. Um mundo onde toda a gente fala… consigo própria. Só. Exclusivamente. Diálogos cruzados, desencontros eternos. Um musical, claro. Abertura com dezessete monólogos simultâneos em esperanto fonético. O protagonista? Um surdo-mudo telepático com dislexia emocional. Apoteose: todos finalmente entendem que não precisam de ser compreendidos para serem felizes… mas já ninguém está vivo nessa altura.

(Ri. Tosse. Chora um bocadinho, mas disfarça com uma citação que ninguém pediu.)

– “What ‘s in a name?”, dizia o bardo. E eu respondo: dívidas. Penhoras. Rejeições. Em papel timbrado. Mas isto não é tragédia! Isto é… tragicomédia conceptual! Com marionetas, claro. Sempre com marionetas. Feitas de órgãos reais do sistema burocrático. Um rim da Segurança Social. Um baço das Finanças. Um intestino da Cultura. In Destino Grosso … já usei esta antes? Acho que já … Se se mete na cultura dá sempre merda. Que se foda. Ai ai … Desculpem. Não. Esqueçam esta parte. (berra) Apaga!

(Aproxima-se da beira do palco. Os olhos brilham. Ou está inspirado ou prestes a desmaiar.)

E… e… e se fosse um jogo de tabuleiro filmado em tempo real? Tipo monopólio existencial e tal. Jogadores compram sensações humanas: culpa, tédio, nostalgia de algo que nunca viveram. Quem finge melhor a felicidade… perde! Porque este jogo é português. Claro. Vencedor recebe… um lugar na fila para a Loja do Cidadão, do bom cidadão, com bilhete numerado e tudo. Chamamos-lhe… “Memórias de Uma Queixa”.

(De repente, pausa. Fica imóvel. Olha para cima. O ar muda. Assolado por um pânico e desespero genuíno à beira do choro mas frenético ainda. Vira-se de costas e começa a chorar. O som não vem, só o corpo. Ombros contraídos. Um silêncio molhado. Volta-se novamente para o público. Está a rir. Um riso quase maníaco – largo demais, fora de tempo, sem relação com nada. As lágrimas ainda pendem. Os olhos vermelhos, húmidos. O riso não lhes chega. O rosto desfaz-se – ranho, saliva, uma cara semi-desfigurada pela insistência em continuar. Mas continua.)

Já sei já sei já sei… ok… ouçam, esta vem com aviso parental. Imaginemos… um homem, um tipo perfeitamente normal, tipo eu mas com menos caspa emocional, que descobre que só consegue amar… depois de comer alguém. Literalmente. Não é metáfora de poetas constipados. É carne. É dente. É unha. Mas com carinho, atenção! Nada de brutalidade – jantar à luz das velas, um cotovelo ao molho de tinto, e um poema murmurado enquanto se mastiga a escápula da alma gémea.

(Ri-se sozinho, depois apercebe-se.)

Chamar-se-ia… “Como Te Quero”. Como… te quero…
Sim, sim… Pobre? Podre. Quase tão mal cozido quanto o argumento. Não julguem, estou a testar os limites do apetite emocional!

(Dá dois passos, parece tropeçar numa ideia caída no chão.)

E agora esta – esperem, esperem, esperem, esta vem das entranhas…
Uma mulher. Uma senhora muito respeitável. Colecionadora de selos. E cadáveres. Só consegue dormir se tiver um morto ao lado. Um em estado avançado de decomposição. Quanto mais cheiro, mais sonos profundos. Freud diria qualquer coisa, mas Freud também gostava de charutos e assim disfarçava o cheiro se fosse preciso.
Título provisório: “E De Restos, Um Selo De Boa Noite”.
(Pausa. Olha em redor, tenso.)

Demasiado? Quem sabe. Mas há gente que dorme com os seus traumas, esta é só… mais literal.

(Agarra nuns papéis e abana-os, numa tentativa de varrer a consciência.)

Olhem, esta é um pouco… hmmm… participativa. Reality show. As pessoas ganham pontos… por amputar partes do corpo! É arte, ok? É a estética da mutilação! Piercings são para meninos, aqui o Sr. José Augusto corta o próprio polegar com uma faca Musashi e o júri dá-lhe cinco estrelas Michelin! O prémio final é uma cadeira de rodas feita de aplausos.

(Bate palmas devagar. Depois pára, ruborizado. Uma pausa longa. Encaracola-se em si próprio por um instante. Depois levanta-se num sobressalto.)

Já sei! Esta é explosiva. Um tipo apaixona-se por… uma granada. Sim. Lindíssima. Deslumbrante. Carregada de estilo. Arco do amor, tensões, metáforas de anel pull-pin, o pacote completo. Dormem juntos, vão ao cinema, ela explode de ciúmes – literalmente. Casam. No altar… BOOM. Final com pétalas e membros pelos ares.
Título… “Estilo: Aço da Granada”.
(Momento de silêncio. Depois, a medo:)

Sim, ok. Eu sei. Um bocado… espalhafatoso. Mas o amor… o amor arrebenta com um gajo, não é?

(Riso de quem está claramente a precisar de um psiquiatra ou de um abraço.)

O AUTOR (baixando a voz, sem já esperar reacção)

Já sei. Última proposta. Ouçam bem.
“O Autor.”
Um homem sozinho num palco, a tentar desesperadamente vender ideias.
Mas são todas… más. Ridículas. Intragáveis.
E ele… ele sabe.
Sabe, mas continua. Porque parar… parar é ceder.
É aceitar.
É aceitar que ninguém ouve.
E se ninguém ouve…
então talvez ele nunca tenha existido.

(Pausa. Olha em redor, como quem subitamente vê as paredes da própria cela. Murmura, quase para si só.)

Ou talvez…
Talvez não seja escritor.
Talvez seja só um amontoado de merdas com aspas.
Uma nódoa a tentar ser pensamento.
Uma sopa de vozes reescritas por um cozinheiro que se esqueceu de acender o lume.
Talvez… talvez seja só mau.
Um gajo sem talento. Um equívoco com pernas.
Uma orgia de más ideias a foder numa cabeça que é um circo de macacos mal treinados e sujos.
Saltando por arcos de fogo… em chamas de pretensões.
E ninguém aplaude, porque ninguém quer ver macacos com lepra a recitar monólogos de merda.
Talvez seja isso.

Talvez ele não esteja a escrever nada.
Talvez esteja a vomitar ruído.
A remexer na lixeira mental de um tipo qualquer…
O dito autor.
A mente.
O buraco por onde eu escorri.
Ou pior… um eco.
Um eco do eco do eco dessa mente. A mente que mente.
A mente de um tipo de nome Bruno Miguel Tavares, a teclar à secretária, num computador, num escritório mal ventilado, com três cafés frios ao lado para lhe controlar a enxaqueca. Incha a queca dessa mente que lhe mente. Ele desmente, obviamente, diz que sente e que é valente. Fala em arte, em Deus a beijar a serpente, delira mas finge que é prudente, bebe um ou dois golinhos de aguardente, diz ele que é para o ajudar criativamente, nada que no círculo criativo se lamente, mas agora tem de ser diferente, individualmente e no mundo corrente, para se ser criativo basta andar contente. Olhar a treva de frente, com ego ausente, meditar de fronte para o nascente, estar presente, e ir ao terapeuta se a dita mente continuar doente. Se ele pressente que vem aí semente de raiva que faça com que ele rebente, alto lá minha gente, que isso é urgente. Estar deprimido é muito exigente e andar ansioso é muito deprimente… Então  bola pra frente. Deixa de ser carente que só és descendente de utente. É bom que se enfrente a torrente de dor sem se estar dormente, mas consciente. 

(Ri, breve. O riso não tem corpo. Só ossos.)

Mente consciente. Conscientemente mente.

(Aproxima-se da primeira fila da plateia. Aponta para um lugar vazio.)

E tu? És real? Ou és só mais um eco da mesma voz que me inventou para que me calasse por ele?

(Aponta para outro lugar, também vazio.)

E tu? Mais do mesmo mesmo. Do mesmo nada. 

(A sala ilumina-se por completo. Todas as cadeiras estão vazias.)

E vocês todos?

(Vira-se de costas. Anda devagar até ao centro do palco. Pára. Fecha os olhos. Volta-se novamente.)

Sou um conjunto vazio de ideias
de uma mente vazia de ideias
para um público que é uma ideia vazia.

(Senta-se no chão. Olha as mãos. Ri de si sem som. Levanta-se de novo.)

E mesmo assim…
continuo a falar.
a falar.
a falar.
a falar.
(Pausa.)
porque calar…
Mata-me.
(Silêncio longo.)
Mesmo assim… continuo a falar.
Porque calar… seria finalmente fazer sentido.

(Luz apaga-se.)

FIM

******

INT. ESCRITÓRIO – MEIO DA MANHÃ

Três chávenas de café. Vazias.
O ARGUMENTISTA termina a leitura.
Olhos fixos no ecrã.

Tira os óculos.
Massaja a ponte do nariz.
Pousa-os ao lado das chávenas.

Olha pela janela. Lá fora, a luz mudou.
Mais viva.
A cidade já não sussurra – respira.

O ARGUMENTISTA fita o ecrã.
Algo muda no olhar. Pequeno. Quase impercetível.
Mas está lá.

Ele volta a colocar os óculos.
Abre uma nova janela.

ECRÃ DO PORTÁTIL – CLOSE-UP

Interface do seu blog.
Botão: “Publicar”.

Ele copia e cola o texto.
Clica: salvar.
Clica:
PUBLICAR.

Tira os óculos de novo.
Inclina a cabeça para trás.
Suspira.
Longo. De alívio.

Fecha o portátil.
Levanta-se.
Sai do escritório.

FIM

******

Dez horas e cinco minutos da manhã. O texto respira sozinho no ecrã, completo, ridículo, inevitável. O ESCRITOR relê tudo uma última vez, depois outra, procura gralhas que já não existem, vírgulas que já encontraram o seu lugar. Uma resignação estranha instala-se no peito – não tristeza, não alívio, mas algo intermédio, uma aceitação que sabe a fim. Talvez seja este. Talvez este seja o último conto que escreve, e a ideia não o perturba como deveria. Faz sentido, até. Uma conclusão que se des(d)enha sozinha, uma equação matemática que encontra o seu resultado inevitável.

Clica em “Publicar”. O texto desaparece do seu domínio privado e materializa-se algures na vastidão digital, onde ele quer acreditar que desconhecidos o lerão durante o pequeno-almoço ou nas pausas do trabalho. Ou talvez não. Na verdade, de certeza que não. A diferença, neste momento, parece-lhe negligível. Sabe-lhe bem a ilusão. Sabe-lhe bem sonhar ser escritor. O ESCRITOR.

Levanta-se da cadeira, as costas a protestarem contra as horas curvadas sobre o teclado. Tira os óculos e abandona-os na secretária. De uma estante, escolhe três livros quase ao acaso – um romance japonês sobre solidão urbana, uma coletânea de contos americanos, um ensaio francês sobre um caminhante solitário – e leva-os consigo. São passagens, atalhos, escapatórias: abrem fendas por onde o mundo, por breves páginas, se deixa ver a cores. Os seus contos também. Ou eram. A partir de agora, é possível que deixem de ser isso. Para trás fica a caneca. Apenas uma caneca. 

O corredor de volta à sala é uma travessia entre universos. Deixa para trás o território da criação, o espaço onde as palavras se combinam em possibilidades infinitas, onde cada frase pode ser reescrita, cada parágrafo moldado até à perfeição – para um lugar menos flexível, mais irredutível. Um mundo cinzento feito de dores miúdas, lembretes adiados, rotinas que não se deixam apagar. É sempre assim: a saída da escrita é uma pequena morte, um retorno forçado a um espaço que parece ter perdido saturação.

Mas quando chega à sala, encontra-a lá. A esposa, instalada no sofá com as pernas dobradas, a barriga redonda de sete meses a empurrá-la ligeiramente para trás. Um filho que cresce lá dentro como uma frase que se constrói palavra a palavra, célula a célula. Veste uma camisola demasiado grande que era dele e que ela adoptou, e tem o comando na mão. A televisão murmura qualquer coisa. O quê, não é importante.  O vácuo não me vai consumir, pensa ele, e assusta-se com a violência muda da frase. Mas é verdade. O mundo não é cinza. Aqui sim o mundo tem cor. Este mundo real tem mais para viver que aquele dentro da tela, dentro da sua cabeça. Infinitos eus infinitamente recriados de infinitas e vazias maneiras. Está farto de montar puzzles de palavras, farto de procurar sentidos onde talvez não existam. Talvez não tenha mesmo mais nada para dizer ao vazio. Talvez aquele tenha sido o último. Talvez deva ser. Faz sentido que seja.

Aproxima-se dela e beija-lhe a barriga, sentindo sob os lábios a pele tensa onde cresce o filho. Ela desvia os olhos da televisão e sorri-lhe – um sorriso onde o sonho contém o real sem o desfazer, e onde o real aprende a parecer sonho. É um sorriso que ele nunca conseguiria escrever, demasiado complexo para caber em palavras, demasiado verdadeiro para ser ficção.

Os cães saltam para cima do sofá numa explosão de pelo e entusiasmo. A cadela pisa os livros que ele trouxe, derruba-os para o chão com a elegância de um furacão doméstico. O cão ocupa imediatamente o espaço que ela deixou livre, girando três vezes sobre si mesmo antes de se instalar. O ESCRITOR observa os livros caídos e surpreende-se por não se irritar. Ah, isto é novo.

Senta-se ao lado da esposa, ajeita-lhe os pés sobre as suas pernas. Na televisão, duas raparigas falam sobre uma viagem que fizeram a um destino tropical enquanto estão sentadas numa esplanada de café que lhe parece ser em Nápoles. Queria que fosse em Nápoles. As raparigas riem-se de algo que ele não ouve, gesticulam com expressões exageradas, vivem as suas vidas amplificadas para consumo público.

Olha para ela outra vez. Ali no sofá, com o seu filho na barriga, os cães espalhados à volta deles numa geometria animal imperfeita. A luz da manhã entra pela janela e desenha padrões no chão liso de madeira viva. É tudo tão simples, tão desprovido de metáforas ou simbolismos forçados. É apenas isto: uma mulher, um homem, dois cães, uma criança por nascer, uma manhã qualquer que é todas as manhãs.

Pensa que se vivesse num dos seus contos, este chamar-se-ia “O MUNDO TODO AQUI MESMO À MINHA FRENTE”.

Ao David, à Catarina, ao Lupi e à Rita.