138B

– Mãos ao ar! – disse ele. – Todos quietos!

O clique do revólver soou com a precisão de uma sentença lida em voz baixa.

O banco era um edifício de adobe e madeira. Lá fora, cavalos amarrados e a vastidão de um território sem nome no meio do deserto. No interior: calor, silêncio e temor. 

O sol entrava oblíquo pela porta entreaberta e a poeira dançava. Cinza empurrada por um sopro de brasa moribunda.

As três pessoas na sala ergueram os braços com uma lentidão resignada. Um velho de barbas nodosas, uma jovem secretária interrompida no registo de um pagamento, e atrás do balcão, uma mulher – a única funcionária do banco naquele dia. Trazia uma camisa branca vincada e um lenço azul preso à volta do pescoço. Não havia surpresa no rosto. Era como se aquele momento fizesse parte do expediente.

Ele atravessou a soleira devagar. A madeira a ranger sob as botas gastas. Sentidos colados nela.

– Estás sozinha?

Ela acenou com a cabeça, sem uma palavra.

– Leva-os para o cofre grande. – disse. – Tranca-os lá dentro. 

Ela fitou-o longamente antes de obedecer. Depois levantou-se, sem pressa. Retirou da cintura uma chave grossa e fez sinal aos outros. O velho protestou, mas ela pousou-lhe a mão no ombro e murmurou algo que só ele ouviu. A jovem secretária seguiu-os cabisbaixa. Caminharam devagar, mergulhando numa memória que não era deles. O cofre selou-se com um estrondo abafado.

O homem virou-se para ela. A arma presente, mas a alma noutro tempo. Um tempo que lhe morria no peito. 

– E agora? – perguntou ela.

Ele procurou em volta, varrendo os cantos.

– Saco. Preciso de um saco.

Ela pegou num de serapilheira, velho, com o cheiro entranhado de males e esperas, e estendeu-lho.

Ele ajoelhou-se. Começou a enfiar notas no saco, mãos rijas e rápidas. De vez em quando erguia o olhar para ela e havia nele algo perdido, como um cão que regressa a uma casa sem dono. Como se buscasse nela um juízo enterrado. Uma explicação que nunca lhe fora dada. Nem nos dias em que era criança, nem nos anos seguintes, em que o mundo lhe envenenara o sangue.

Ela inclinou-se sobre o balcão, os braços cruzados.

– És aquele a quem chamam Lázaro Sem-Deus, não és?

Ele não respondeu.

– És sim. Eu sei que és. Então… este? Está a correr bem?

Ele continuou a guardar as notas no saco sem responder, os gestos automáticos.

– Porque fazes isto?

– Isto?

– Porque roubas… Porque matas…

– Preciso. Só isso.

– As pessoas que mataste… precisavas? É o que nos vai acontecer? Vais matar-nos?

Os olhos vazios do homem, negros poços secos.

– É isso que queres que aconteça? Porque se não calares essa boca, acredita que vai mesmo acontecer. Queres?

Não houve resposta. Ficou a vê-lo enquanto ele arrancava a gaveta de um armário e a despejava no chão com uma fúria que não era para ali. 

– Há formas mais simples. Menos desesperadas.

Ele parou. O corpo ficou quieto como um animal em escuta. Virou-se devagar.

– E o que sabes tu de desespero?

– Menos que tu. Mas tive a minha conta de tempos difíceis.

Ele bufou. Um som breve, quase um riso sem prazer.

– Tempos difíceis não é coisa que uma senhora assim tão fina consiga perceber.

– Mas gostava. – disse ela, e havia na voz uma calma aprendida, a firmeza de quem já vira bestas indomáveis ajoelharem-se diante do espelho. – Porque não dizes desta vez porque fazes isto? Um manifesto. Uma carta. Qualquer coisa.

Ele franziu a testa. O revólver desceu um pouco, esquecido nas mãos.

– Para quê?

– Porque a pergunta vai ser feita. E, quem sabe… se te acabarem por apanhar, pode ser a única coisa que reste de ti. A tua razão.

Ela baixou-se e tirou do espaço sob o balcão um molho de folhas amareladas, uma pena de escrever e um tinteiro. Colocou-os à frente dele. Empurrou-os com a ponta dos dedos, depositando ali uma escolha.

O homem contemplou o papel e largou o saco. Depois pousou o revólver, tirou o chapéu com um gesto cansado, e sentou-se na cadeira junto ao balcão como quem se senta no banco dos réus.

Escreveu uma linha. Leu-a. Rasgou o papel com raiva contida. Tentou outra. A pena arranhava o silêncio da sala qual unha em pedra. Ela não disse nada. Limitou-se a observá-lo.

Ele parou por um momento e ficou imóvel, esquecido do mundo. A atenção cravada no crucifixo pregado à parede, torto, o corpo de Cristo, o corpo quebrado de um homem vencido. O suor corria-lhe pela têmpora em fios finos. Voltou à pena. Escreveu frases soltas. Fragmentos de uma voz que não sabia o que queria dizer. Que não se lembrava quem era.

Ela aproximou-se. Cauta. Leu por cima do ombro dele.

– Parece que estás a fugir de ti próprio… mais do que da lei.

Ele levantou-se de repente, empurrando a cadeira.

– Que queres de mim? – berrou ele.

Ela não recuou. Nem um passo.

– A verdade. Só isso.

– Qual verdade? A verdade que vocês querem ouvir? Isso não é a verdade. São histórias para vos sossegar o medo.

– Vocês? Quem são vocês?

– Vocês todos. Os outros…. Os outros todos! – calou-se por um instante, depois sussurrou entre dentes. – A praga!

Olhou para o lado, à procura do crucifixo, mas a parede estava vazia. Apenas o contorno limpo, mais claro, onde antes pendia.

Quando se voltou, ela tinha-o na mão. O pequeno crucifixo, pendurado até há instantes.

– É igual ao que estava sobre a tua cama não é?

O objecto, de madeira escura, parecia mais antigo agora.

O homem ficou alheio a tudo, num tempo que se tinha torcido.

– A minha cama…

– Quando ainda eras pouco mais que um rapaz. O crucifixo que a tua mãe te deu no dia em que o teu pai sucumbiu à doença.

– Ele não sucumbiu a doença nenhuma.

– Não?

– Claro que não. Sou muita coisa, mas não sou doença. Não sou febre, não sou peste. Não sou chaga, não sou praga. As pragas são os outros, não eu. Ah… Pai. Abba, Pater. O porco. Ainda oiço os guinchos aflitos, a carne a chiar no ferro. Comeram-no todinho sem saber. Oh, nobre assado. Anda cá, porquinho. Oinc oinc. Suíííííííno. Vê lá o que um tempero a petróleo faz de ti, cabrão. Arde aí, sim. Depois penduro-te em arame farpado e fazemos uma exposição. Para os vizinhos, para a aldeia inteira. Querias-me fazer o mesmo. Ias-me fazer o mesmo. Não ias? A mim? Se eu fosse “uma menininha”? Foi isso que me chamaste, não foi? “Ai de ti se fores uma menininha!”… E aquela puta deixava.

– A tua mãe?

– A minha mãe. Minha santa mãe. Ó santa das alturas, luz entre as telhas e bênção nos cornos dos que a amaram. Beata roída por dentro de tanta missa e tanto padre e missionário, à missionário e à canzana, tal e qual a cadela que era. Fumada por igreja e meia, queimada por dentro de tanta reza e tanto pecado mal apagado. E sorria de prazer. Oh, sim sorria.

– Também mataste outras vezes, não mataste? Quando não roubavas? A empregada de bar, do Gideon’s. Fez-te lembrar a tua mãe?

Tornou a encará-la, regressando de dentro de si. Pegou no revólver. A carta, meio escrita, ficou para trás, novo testamento de meio pensamento.

– Vocês todas fazem-me lembrar a minha mãe. – disse ele, avançando.

Ela encostou-se à parede. O corpo firme, a cabeça alta, de quem assiste, não quem sofre. O lenço azul, quieto, testemunha muda.

O sol filtrava-se pelas ripas das janelas, cortando o pó em tiras de luz.

Lá fora, o som de cascos ao longe. 

– Isso diz mais de ti do que de todas nós.

– Tu… Tu fazes-me lembrar a minha mãe.

– Talvez então o melhor seja matares-me também.

Ele ergueu o revólver.

O tempo parou. A luz ficou suspensa no pó.

Durante breves segundos, o mundo deixou de respirar.

O homem fechou os olhos e baixou a arma devagar, quase com ternura.

– No fundo… nem eram más pessoas. – disse.

– Os teus pais?

– Não. – suspirou. – As pragas que acabei por expurgar.

Reabriu os olhos, apontou-lhe a arma e disparou.

O som cru do disparo. Um feixe de luz a recolher-se. A imagem dela desfez-se como vidro fino a estalar no calor. Caiu para trás, mas não chegou a tocar o chão.

Acordou deitada, o corpo a suar conectado por cabos sintéticos, veias de máquina, ao processador central. Tirou o halo e sentou-se devagar.

O compartimento era branco, hexagonal, paredes lisas semelhantes a marfim polido. No visor diante dela, os dados deslizavam ininterruptamente em linhas contínuas.

Um painel flutuava à sua frente, a interface luminosa pulsava num azul pálido.

No ecrã:

SIMULAÇÃO Nº 138B CONCLUÍDA

RECLUSO MANTÉM PADRÃO MATRIZ

AVALIAÇÃO: NÃO REABILITADO

Do outro lado do vidro, ele. O prisioneiro. O mesmo homem que, instantes antes, lhe apontara o revólver e puxara o gatilho. Nú, suspenso em líquido amniótico, entregue a um sono sem tempo. O electroencefalograma a tremular num gráfico curvo.

A etiqueta no visor da cela: PRISIONEIRO – TR121131.

Ela respirou fundo. Anotou algo no terminal junto a si.

Na sala contígua, por trás de uma divisória translúcida, as luzes baixaram. A avaliação periódica do preso seguinte tinha começado.