Lixeira a Céu Coberto

O bar estava quase vazio. Um tipo tossia há dez minutos, sentado ao balcão, só ele e a garrafa. Duas mulheres no canto, pintadas demais, falavam baixo e riam para dentro. O empregado do bar secava copos num silêncio solene. Na televisão, um filme antigo de boxe. Fitas a preto e branco onde um gajo levava murros e não caía. Pedi outro bourbon. Veio morno. Soube-me a chão. A cidade chamava-me. Acabei a bebida, deixei as moedas certas e preparei-me para sair. 
O empregado gritou por mim.
– Que é? – rosnei.
– Levas-me o lixo lá para fora?
Procurei em volta. Ele apontou com o queixo. Peguei no saco e dei de frosques. 
– Até amanhã. – berrou ele lá de dentro.
Mais ninguém ligou puto. Quem é que repara quando outro se vai embora de um sítio que não importa?

Lá fora, a cidade era a mesma merda de sempre: o fumo dos escapes misturado com o cheiro da miséria humana. Uma mistura de suor, combustível e desistência. Carros passavam como se tivessem sítio onde ir, putas à esquina vestidas com o que sobrava da dignidade delas, e os prédios erguiam-se como caixões verticais, empilhados uns sobre os outros à espera do fim do mundo.
O alcatrão colava-se aos sapatos. Um homem empurrava o seu carrinho de supermercado com latas vazias. Em frente à lavandaria automática aberta 24h do chinês, como de costume, o polícia roncava dentro do carro. Ao longe, um rádio tocava “Heartattack and Vine” por trás de uma janela com grades. Vi um miúdo deitado no passeio, coberto por jornais. Um cão latiu na esquina.
Cheguei ao beco. O beco. O lugar onde só se vai quando se tem de ir. Encostei-me à parede húmida e fiquei à espera. O Patrão tinha combinado ali, mas o gajo nunca aparece. Manda recados. Quando ordena uma morte, alguém morre. E nós obedecemos. E pronto. Fica feito. Já despachei uns quantos desgraçados em becos como este. 

Esperei. Braços cruzados. O casaco torto com o peso da fusca no bolso direito. Uma ratazana atravessou a luz do único candeeiro. Acendi um cigarro. Tudo igual. Tudo calmo. A ponta acesa, o fumo pelo ar a rodar em voltas lentas.
Pensei neles. Sabe bem ter um buraco decente onde voltar, quando já só resta o cansaço, longe deste esgoto nojento. Ela ainda mantém o hábito de olhar para mim enquanto vemos televisão, mesmo quando finge que não. Os miúdos deixam os brinquedos espalhados pela sala e chamam-me à noite quando sonham medos. Há risos, arroz queimado e desenhos tortos colados ao frigorífico. “Faço isto por ela e por eles.” Mas a verdade é que também faço isto por mim. Para além do dinheiro sujo, há algo de limpo nisto tudo. Aponto a arma a um cabrão qualquer e o mundo pára por um segundo. Dá uma sensação que nenhuma droga dá. Limpar a cidade, mesmo que o detergente seja sangue. 

Senti-o antes de o ver. Um dos seus cães. Gabardina pelos tornozelos. Fedora enterrado até às sobrancelhas. O rosto saía e entrava na sombra ao aproximar-se. Travou o passo a meio metro. Deu-me um papel dobrado, depois desapareceu entre dois contentores. Abri-o. Uma rua, um apartamento e quatro nomes. Segui.

As luzes dos prédios piscavam devagar. Sem ritmo. Sem tempo. Um táxi passou a arrastar o pára-choques. Um casal discutia num terceiro andar. Cheguei à morada. Subi os degraus. A porta tinha um risco profundo na madeira. Toquei à campainha.
Um rangido por dentro, depois o trinco, depois ele. Camisa branca, engomada. O colarinho solto. Os óculos pendiam no bolso. Ao fundo do corredor, sons de talheres, risos de crianças. O cheiro do assado espalhado pela casa chegava até à entrada. Uma das crianças apareceu, a outra veio aos tropeções logo atrás com um peluche nas mãos seguida de perto pela mãe.  A mulher encarou-me um instante. O homem ficou à espera de uma pergunta que não fiz.

Fecho a porta atrás de mim.
Na cozinha, o tacho borbulha. Os miúdos discutem sobre o comando da televisão. A mulher limpa a bancada com movimentos curtos. Pouso o casaco nas costas da cadeira. Os bolsos vazios. O arroz está queimado. Ninguém se queixa. O vinho veio de uma garrafa sem rótulo. Lá fora, um carro passa a abrir. Alguém grita “filho da puta”. O som desaparece. Tudo igual. Tudo calmo. Ela senta-se. Os olhos dela passam por mim, e depois voltam para o prato. Ninguém pergunta nada. Eu não digo nada.

Há coisas às quais é preciso virar as costas. Mas há outras que têm de ser feitas. Sem aviso. Sem bater à porta. Matar o Patrão foi só isso. E pronto. Está feito. 
Limpar o lixo, sim. Ser eu o lixo? Nunca.